As relações migratórias entre os EUA e Cuba passaram a ser sobrepolitizadas desde a revolução de 1959. Os que se opuseram simplesmente se foram do país. Basta dizer que metade dos 6 mil médicos do país desembarcaram na Flórida. Ficar era aderir à revolução. Ir embora era debilitá-la e aguardar seu inevitável fracasso, para voltar à rotina anterior.
"Memórias do subdesenvolvimento", obra-prima da cinematografia latino-americana, de Tomás Gutierrez Alea - cujo último filme foi "Morango e chocolate" - refletia os dramas de um intelectual diante da revolução de carne e osso, quando sua mulher parte para Miami e ele tem que acertar as contas com o povo triunfante nas ruas e a classe média em fuga.
Quarenta anos depois, um novo filme cubano, de um jovem diretor, aborda o mesmo dilema - partir ou ficar em Cuba -, agora já não mais nos anos gloriosos do início da revolução, mas nos duros anos do chamado "período especial".
Entre os dois momentos, quem foi de Cuba foi tachado de "gusano" (verme), quem chegou às praias da Flórida foi chamado de "herói da liberdade", de um lado e de outro. Ir-se de Cuba foi o caminho de muitos intelectuais e artistas, mas ao contrário da dissidência do leste europeu, chegaram a Miami e tiveram que se identificar com a política imperial norte-americana. A polarização da "guerra fria" nunca abandonou a relação entre Cuba e os EUA.
O governo norte-americano definiu um número de imigrantes legais que podem entrar no país - 20 mil -, mas nunca libera mais do que uma pequena proporção desse número, incentivando as tentativas de saída ilegais, que são notícia de jornal, ao contrário das outras. Mas ao mesmo tempo o governo norte-americano impede que seus cidadãos visitem Cuba. A grande quantidade de turistas que desembarca na Ilha o faz ilegalmente, com o risco de punição. Os vôos que os conduzem não mencionam para onde vão, como se fossem charters irregulares.
No filme "Nada mais" - do diretor Juan Carlos Cremata Marberti, numa coproduçao de Cuba com a Espanha, a França e Itália - uma jovem funcionária dos correios vive uma vida totalmente isolada do seu meio, onde perambulam personagens sofridos, sem esperanças e sonhos - como os focalizados no extraordinário longa metragem "Sonata havaneira" -, até que percebe que pode se divertir e alegrar as pessoas respondendo suas cartas e dando alento às vidas.
Seu trabalho é perturbado pelas burocratas de turno que a impedem de trabalhar ouvindo música e a perseguem pelo seu comportamento estranho. Ela se encontra com um carteiro que vive fechado no seu mundo de música, que ouve com audífonos, enquanto entrega as cartas.
A família dela, que foi para Miami, inscreveu-a no sorteio para obter vaga dos EUA e emigrar. Quando os dois jovens se encontram, se enamoram e ela se torna pessoa essencial na vida de muita gente pelas cartas que manda, a família lhe comunica que ganhou a vaga para emigrar. Ela faz as malas, alegando que nunca havia sido escolhida para nada, que chegara o momento de viver sua vida. Ela queima todas as cartas, se dirige para o aeroporto, faz todos os trâmites, mas termina lendo carta do jovem carteiro e finalmente decide a ficar, fazendo prevalecer o sentimento de ser cubano acima das dificuldades e da burocracia.
O filma reafirma que a melhor e a mais dura crítica dos problemas que vive Cuba vem da sua cinematografia - de que Gutierrez Alea foi o melhor expoente e que deixou grandes seguidores na Ilha. O filme exerce uma impiedosa - e até mesmo caricata - crítica à burocracia, tem momentos muito desiguais, mas mostra o vigor e a criatividade de uma das melhores cinematografias latino-americanas.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História" (Boitempo Editorial) e "Século XX - Uma biografia não autorizada" (Editora Fu
Memórias do "período especial"
Por Emir Sader - Quarenta anos depois, "Nada mais", do jovem diretor cubano Juan Carlos Cremata Marberti, aborda o velho dilema sobre partir ou ficar em Cuba, agora já não mais nos anos gloriosos do início da revolução, mas nos duros anos do chamado "período especial". (Leia Mais)
Quarta, 01 de Outubro de 2003 às 19:07, por: CdB