Rio de Janeiro, 24 de Abril de 2026

<i>Memórias de uma Gueixa</i> americaniza cultura japonesa

Embora o romance Memórias de uma Gueixa tenha sido escrito por Arthur Golden, um norte-americano, ele absorveu o bastante da cultura japonesa em seus anos de viagens e estudos para descrever o misterioso mundo das gueixas como um universo de discrição, rituais e tradições. A versão filmada, no entanto, americanizou a história e tornou seus personagens grosseiros, ignorando nuances da tradição japonesa. Os comportamentos e diálogos são altamente inverossímeis em um Japão em plena era da Depressão. (Leia Mais)

Quinta, 02 de Fevereiro de 2006 às 19:33, por: CdB

Embora o romance Memórias de uma Gueixa tenha sido escrito por Arthur Golden, um norte-americano, ele absorveu o bastante da cultura japonesa em seus anos de viagens e estudos para descrever o misterioso mundo das gueixas como um universo de discrição, rituais e tradições. A versão filmada, no entanto, americanizou a história e tornou seus personagens grosseiros, ignorando nuances da tradição japonesa. Os comportamentos e diálogos são altamente inverossímeis em um Japão em plena era da Depressão.

O debate acalorado que tomou conta antes e depois da estréia do filme na Ásia e Estados Unidos estendeu-se para outros campos. Além de ter sido feito por norte-americanos, rodado basicamente nos Estados Unidos e, é claro, falado em inglês, o longa foi criticado por ter escolhido atores chineses (Ziyi Zhang, Michelle Yeoh e Gong Li) para os papéis principais. Mesmo assim, Memórias de uma Gueixa, que estréia no Brasil nesta sexta-feira, disputará em seis categorias do Oscar. A direção é de Rob Marshall, mesmo de Chicago.

A meticulosa recriação do hanamachi (ou bairro das gueixas) em 1930 em um rancho no sul da Califórnia é um feito bem-sucedido. São construções de madeira instáveis, ruas e alamedas antigas, casas de chá formais e um mar de lanternas noturnas.

Os quimonos, uma competição de sumô, danças de gueixas e a trilha musical de John Williams,  indicado ao Oscar, são marcas registradas dos filmes clássicos de Hollywood. E esses são deleites superficiais que podem distrair o espectador da tendência de Marshall em priorizar o melodrama.

Histórias de gueixas

Memórias conta a história de uma menina que é vendida a uma okiya, ou casa de gueixas, em Kyoto em 1929. No início, Chiyo (Suzuka Ohgo) resiste a sua iniciação na nova vida, apesar do medo que sente das doyennes da casa, a Mãe (Kaori Momoi) e a Tia (Tsai Chin). Para aumentar seu drama, a principal gueixa da casa, a traiçoeira Hatsumomo (Gong Li), antipatiza de cara com a menina. Quando Chiyo tenta fugir, a Mãe se recusa a financiar seu treinamento para gueixa. Isso a relega ao status de empregada para o resto da vida.

Mais tarde, a lendária gueixa da região, Mameha (Yeoh), resolve proteger a menina, vendo na linda garota de olhos assombrados (agora interpretada por Zhang) a chance de se livrar de sua rival Hatsumomo. Mameha faz uma aposta com a Mãe de que todas as dívidas de Chiyo à okiya estarão pagas no vigésimo aniversário da menina. A jovem, que muda o nome para Sayuri ao se tornar aprendiz de gueixa, passa por um treinamento intenso. No universo das gueixas, um vislumbre da pele debaixo do quimono ou um rumor espalhado por uma rival maliciosa podem fazer ou destruir para sempre uma reputação.

Mameha leva sua "irmã caçula" para as casas de chá e a apresenta a todos os seus clientes, da mesma forma como Hatsumomo e sua protegida, Pumpkin (Youki Kudoh). Todas as vezes, Hatsumomo tenta destruir suas rivais. Naturalmente que o roteiro de Robin Swicord teve que eliminar personagens e pegar atalhos para colocar a história em 144 minutos de filme. Mas esses atalhos não levam em consideração as sutilezas da história.

O jogo de xadrez entre essas mulheres é reduzido a uma briga comum. Hatsumomo é uma oponente muito mais formidável do que aparece no filme. A versão filmada obriga Gong a fazer o papel de uma bêbada mimada morta de inveja. Ao mesmo tempo, Sayuri cresce rápido demais. Ela dança em sua primeira noite como aprendiz, algo que nunca aconteceria. Ela também responde de forma brusca à sua rival, em um diálogo mais em acordo com uma comédia norte-americana dos anos 1930 do que com a cultura japonesa da época.

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