Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

<i>Memoria de Saqueo</i> é aclamado em Berlim

Terça, 10 de Fevereiro de 2004 às 16:42, por: CdB

Aos 68 anos, o veterano diretor argentino Fernando Solanas recebeu nesta terça-feira, no Festival Internacional de Berlim, uma prolongada ovação, após apresentar o documentário Memoria de Saqueo, em exibição para a imprensa, antes da estréia mundial na seção Panorama do evento.

Solanas, que há mais de 30 anos acompanha a situação política, econômica e social de seu país, receberá ainda hoje o Urso de Ouro especial pelo conjunto da obra das mãos do diretor da Berlinale, Dieter Kosslick.

Em seu novo filme, o autor dos longas de ficção Tangos - O Exílio de Gardel (1985) e Sul, Amor e Liberdade (1988), fala da crise, inclusive moral, dos últimos anos na Argentina, bem como dos efeitos da globalização e das políticas neoliberais.

Durante 118 minutos, o diretor argentino expõe os efeitos devastadores da dívida externa, a corrupção política e sindical e o empobrecimento da população, uma situação sem precedentes na história deste rico país sul-americano.

Entre as imagens do documentário, chama a atenção a de uma menina comendo lixo em frente aos enormes prédios do centro da capital argentina, no final de 2001, quando a crise explodiu. Os saques de lojas e as manifestações espontâneas nas ruas de Buenos Aires que marcaram o fim do governo do presidente Fernando de la Rúa.

O país foi saqueado por uma "associação espúria de políticos, banqueiros, sindicalistas, juízes, multinacionais e organismos financeiros multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI)", dispara o comentário do filme.

Nascido em 16 de fevereiro de 1936, em Buenos Aires, Solanas estreou como diretor de cinema em 1967 com o documentário La Hora de los Hornos, hoje um clássico do cinema latino-americano engajado.

"O que denunciava em La Hora de los Hornos é uma bobagem ao lado do que se vê 35 anos depois em Memoria de Saqueo, pois os níveis de pobreza eram apenas 10% do que são agora", disse Solanas.

Em Tucumán, dois pediatras do Hospital Infantil explicam que há duas décadas avalanches de crianças desnutridas dão entrada cada vez que os governos anunciam um ajuste econômico.

Na área urbana de Buenos Aires, as mães choram desesperadas pela fome que os filhos passam e imploram trabalho. Nas imagens, uma delas aparece sozinha, velando o corpo do filho morto.

"Aqui houve genocídio social e seus responsáveis devem ser condenados por crimes contra a humanidade", disse Solanas, que agora está preparando um novo documentário, intitulado Cantos y Cuentos de la Argentina Latente, um testemunho dos movimentos de protesto e resistência surgidos na crise.

Não se trata de uma segunda parte de Memoria, disse o diretor, mas um filme complementar do primeiro, no qual serão apresentados os relatos das pessoas profundamente afetadas pela crise, entre trabalhadores, desempregados, estudantes e representantes dos mais diversos setores econômicos e sociais.

Tags:
Edições digital e impressa