Um memorando que vazou da Casa Branca na quinta-feira indica que o presidente George W. Bush é favorável à redução de benefícios sociais para futuros aposentados, como parte de um plano para privatizar a Previdência federal.
O memorando, enviado por email a aliados conservadores do governo por um importante assessor de Bush, alerta que, se não houver mudanças na fórmula de cálculo dos benefícios para novos aposentados, o crescimento econômico norte-americano será ameaçado.
O texto indica que a Casa Branca gostaria de modificar a fórmula de cálculo dos benefícios, que seria feito com base no avanço dos preços, e não mais dos salários. Como os preços tendem a subir mais lentamente que os salários, a fórmula levaria a uma redução das pensões ao longo do tempo, segundo analistas.
"Se não cuidarmos deste aspecto do atual sistema, vamos enfrentar sérios riscos econômicos", disse o memorando escrito por Peter Wehner, diretor de iniciativas estratégicas do governo.
A Casa Branca disse que o objetivo do memorando era apresentar os problemas da Previdência e enfatizar que Bush ainda não decidiu o que fazer a respeito.
A Previdência norte-americana, chamada oficialmente de Seguridade Social, dá aposentadoria e pensões para mais de 47 milhões de norte-americanos. A previsão é de que o sistema fique deficitário a partir de 2018 e se esgote em 2042, como consequencia da chegada da geração do baby boom (nascida logo após a Segunda Guerra Mundial) à idade de aposentadoria.
Bush diz que o sistema está quebrado e defende substituí-lo, permitindo que trabalhadores mais jovens invistam uma parte de suas contribuições previdenciárias em ações e fundos privados.
Mas o memorando sugere que a redução de benefícios ajudaria a arcar com o custo, de 1 a 2 trilhões de dólares, resultantes da passagem das contribuições para a esfera privada.
Na quinta-feira, após discutir a questão com lideres republicanos do Congresso, Bush se recusou em duas ocasiões a responder perguntas sobre a Previdência. Ele deve fazer campanha em estilo eleitoral pelo país para convencer a população da necessidade de mudanças.
Adversários da proposta, como os democratas, sindicalistas e ativistas, dizem que Bush está exagerando nos problemas da Previdência para ajudar Wall Street com subsídios governamentais.
"Em público, o presidente diz que vai proteger os benefícios da Previdência. Mas, em memorandos secretos a seguidores direitistas, seus assessores estão revelando um plano muito diferente", disse o líder da minoria democrata no Senado, Harry Reid.
Em seu texto, Wehner disse que "se formos bem-sucedidos (na mudança), essa será uma das vitórias mais significativas já obtidas por governos conservadores".
Analistas dizem que a diferença entre o aumento de preços e de salários é de 1 a 1,5 por cento ao ano. Ao longo de 45 anos de trabalho, isso representaria uma grande diferença.
"O ajuste de salários para preços, por si só, já bastaria para cuidar dos problemas financeiros da Previdência", disse uma fonte envolvida nas negociações da Casa Branca.
Wehner deu a entender que a mudança serviria aos objetivos privatistas de Bush. "Se emprestarmos 1 a 2 trilhões de dólares para cobrir os custos da transição para as contas de poupança pessoais, sem fazer mudanças na indexação de salários, teremos emprestado trilhões e ainda enfrentaríamos mais de 10 trilhões de dólares em custos descobertos", disse o memorando.
Essa estimativa de rombo de 10 trilhões de dólares se baseia numa projeção temporal sem limite. Analistas independentes dizem que seria mais realista falar em um rombo de 3,7 trilhões de dólares ao longo de 75 anos.