Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles afirmou nesta terça-feira que a chance maior é de que continue à frente da instituição até o final do ano que vem, e defendeu a escolha de Aldo Luiz Mendes para a diretoria de Política Monetária como sendo a de uma pessoa com experiência técnica.
– É uma escolha que fizemos para recomendar ao presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) usando os mesmos critérios dos últimos anos. Foi uma escolha cuidadosa, técnica, baseada em pressupostos básicos, como experiência técnica – disse Meirelles a jornalistas.
O presidente do BC lembrou que Mendes já foi diretor de várias áreas do Banco do Brasil, além de vice-presidente de finanças, mercado de capitais e relações com investidores.
– Ele tem um perfil absolutamente preciso e adequado, ele é um profissional técnico – pontuou.
Segundo Meirelles, investidores e analistas ligaram elogiando a decisão "pela sua seriedade, pelo seu preparo técnico e, principalmente, pela sua independência de atitude".
Questionado se já teria decidido se vai deixar o cargo para disputar as eleições de 2010, Meirelles respondeu:
– A maior probabilidade é que eu fique no Banco central até dezembro de 2010 – afirmou.
Meirelles também disse que não está previsto "nenhum movimento próximo", quando foi perguntado se outros diretores estariam para sair do BC.
– Não está previsto nenhum movimento próximo no BC. Esses diretores manifestaram o seu desejo, concordaram de estar comigo na gestão. Evidentemente, no dia em que eu deixar o banco eu não poderei falar pelo futuro – acrescentou.
A escolha de Aldo Mendes para substituir Mario Torós na diretoria de Política Monetária do BC foi anunciada na noite de segunda-feira. Já havia expectativa no mercado de que Torós deixaria o BC, mas esse clima aumentou depois de uma entrevista ao jornal Valor Econômico em que detalhou os bastidores da crise global no país. Perguntado se a entrevista provocou mal-estar, Meirelles disse:
– Conversei com o diretor (Torós) e o que ele me disse é que a responsabilidade dele é o que está entre aspas. Entre aspas ou não, o que está ali são opiniões pessoais. O BC fala oficialmente por meio de seus documentos ou de seu presidente.
'Motivos pessoais'
O Banco Central anunciou na segunda-feira a saída de Mario Torós da diretoria de Política Monetária, num movimento já esperado pelo mercado financeiro. Após dois anos, Torós deixa o cargo, a pedido, por motivos pessoais, segundo nota do BC. O presidente da instituição, Henrique Meirelles, encaminhará ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação de Aldo Mendes para ocupar o posto.
Mendes, 51 anos, atualmente preside a Companhia de Seguros Aliança do Brasil. Entre 2001 e 2009, ele esteve no Banco do Brasil, onde ocupou a diretoria de Finanças, depois foi diretor de mercado de capitais e vice-presidente de Finanças, Mercado de Capitais e Relações com Investidores. Doutor em economia pela Universidade de São Paulo, ele já foi vice-presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima) e integrou os conselhos de administração da BM&F e da Central Interbancária de Pagamentos (CIP).
Para Christopher Garman, analista do Eurásia Group em Washington, a indicação de Mendes foi um "sinal de continuidade."
– Aldo Luiz Mendes tem uma boa reputação. Acho que é alguém com experiência na operação de títulos", afirmou. "Então, não acho que vai impactar tremendamente a percepção dos investidores – acrescentou.
Especulações de que Torós teria manifestado interesse em deixar o BC circulavam entre investidores, mas o processo de saída foi acelerado depois de uma entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada no dia 13 de novembro, em que detalhou os bastidores da crise global no Brasil. Torós, economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), era diretor de Política Monetária no BC desde abril de 2007. Ele substituiu Rodrigo Azevedo no cargo.
Polêmica
Na última sexta-feira, a entrevista de Torós ao jornal carioca Valor Econômico dominou as rodas de conversas entre analistas e profissionais do mercado financeiro, nem tanto pelo efeito que poderia ter nos negócios, mas pelo ineditismo de um diretor do BC em relatar informações internas da instituição. Na visão do sócio de uma asset em São Paulo, que preferiu não ser identificado, a atitude foi uma forma de mostrar ao país que o BC havia agido, sim, para evitar um impacto maior da crise global sobre o país.
– E agido de forma correta, não adotando medidas que nos remetem ao passado, como a adoção de controles de capitais – disse, avaliando ser difícil que Torós não tivesse conversado com Meirelles sobre a entrevista.
O estrategista de uma importante corretora em São Paulo, que também pediu para não ser identificado, discorda e avaliou a entrevista como um meio de Torós "dourar a pílula" quanto à atuação do BC na crise em um momento que ele já estava deixando a instituição.
Outro estrategista, de um banco em Nova York, repudiou a atitude por expor decisões tomadas em sigilo e envolvendo outras pessoas.
Para o economista-chefe de uma relevante corretora no Rio de Janeiro, que também falou sob a condição de anonimato, as declarações de Torós sugeriram que ele não estava mais se importando com as opiniões tanto do presidente do BC como do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um claro sinal de que sua permanência na instituição estava chegando ao fim.
Sem comentários
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, evitou falar sobre a saída do diretor de Política Monetária do Banco Central, Mário Torós, na noite passada. Sobre a possibilidade de mudança da linha de políticas adotadas pelo Banco Central, com a troca na diretoria, Mantega foi breve:
– Perguntem para eles.
Mantega falou nesta manhã sobre política econômica e investimentos em infraestrutura no 4º Encontro Nacional da Indústria promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A abertura será às 10h no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.
No mesmo encontro, reuniram-se o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Aloizio Mercadante (PT-SP), o vice-presidente do Banco Mundial (Bird), Otaviano Canuto, e o professor da Fundação Getulio Vargas Samuel de Abreu Pessoa também participam.
Armando Monteiro disse acreditar que o próximo ano será desafiante para o país:
– O Brasil está saindo da crise, há oportunidade de investimentos, a economia internacional se recupera de forma lenta e com incertezas.
Segundo Monteiro Neto, o tempo político tem que se ajustar com mais velocidade às pressões do tempo econômico. Para ele é fundamental que o Executivo e o Congresso Nacional respondam ao desafio de melhorar as condições de competitividade da economia brasileira. Monteiro Neto elogiou os fundamentos econômicos sólidos da economia, que para ele “sem dúvida foram condições indispensáveis para fazer o Brasil contornar com êxito os percalços da crise global”.
As afirmações foram feitas no discurso de abertura do 4º Encontro Nacional da Indústria promovido CNI, que reuniu cerca de 1.5 mil empresários, que pretende elaborar propostas para apresentar aos candidatos à Presidência da República em 2010.