Por Urariano Mota - Para medir a popularidade da Copa do Mundo no Brasil, eu criei uma inovadora estatística. Vocês desculpem a minha falta de criatividade ou de senso do normal.
Bandeirinhas do Brasil nos carros comprovam a popularidade da Copa
Para medir a popularidade da Copa do Mundo no Brasil, eu criei uma inovadora estatística. Vocês desculpem a minha falta de criatividade ou de senso do normal.
Entendam. A minha contagem tem método. Não é contar assim, à toa, indo nas fábricas. Lá eu ia apenas saber de estoques e pedidos. Nem tampouco vou ao comércio, entrevistando comerciantes, não: os comerciantes iam pensar que sou fiscal do imposto, e o resultado seria falso. Não. O meu método, digo logo, e não riam por favor, que a coisa é séria.
Enquanto espero o ônibus, a minha diversão é contar os carros que têm a bandeirinha do Brasil. Nos resultados, os números variam mais que o meu juízo. Entendam, eu não faço uma contagem aleatória assim, sem rumo e ociosa. É doidice ativa, empenhada, séria, rigorosa. Embora loucura, tenho cá o meu método. Para usar uma linguagem técnica, eu também tenho uma amostragem. Com o mais absoluto rigor, a minha amostragem sempre varia em função da demora dos ônibus. Quanto mais tempo espero no ponto, mais a minha pesquisa é ambiciosa, mais números.
Mas isso é amostragem? me perguntam. - É, respondo. Mesmo sem haver uma discussão prévia comigo mesmo, sob quais parâmetros organizo semelhante ciência, na pior das hipóteses a minha amostragem é uma perfeita amostração de carros: tem bandeira, eu conto, não tem bandeira, eu conto também.
A técnica é esta: eu conto os carros que vêm só de um lado, na mão onde me encontro.
É claro, os meus olhos às vezes divagam para o outro lado, assim como as pessoas engarrafadas no trânsito, que sempre vão para a fila errada, a mais lenta. Eu olho desgostoso para a outra passagem que não “me interessa”, e as bandeirinhas passam pelo outro lado. Honesto, eu me digo: “esses não valem”. E me conformo também, porque às vezes passam muitos carros do lado do inimigo, sem bandeira.
Às vezes eu me engano a mim mesmo. Como alguém engana a si mesmo? Pode ser? – Pode. É quando pulo carro, faço que não vejo, porque os números estão contra o que eu espero. É uma luta difícil, lutar contar si mesmo. Mas logo me recupero, porque dou um acréscimo contra a minha opinião. O pior é que às vezes o remédio é pior que a mentira. Viro um carrasco de mim mesmo. Mas para isso criei uma vacina: todas as vezes em que tenho dúvida, de se fingi ou não fingi ver, não tem problema: recomeço a contagem do zero.
E o número de carros com bandeirinhas vem crescendo. Antes do jogo da estreia do Brasil, apontava 25%. Ou 50 bandeirinhas do Brasil em 200 carros. É verdade que sou muito honesto: mais de uma vez eu poderia parar a contagem quando estavam 10 bandeirinhas em 10. Eu sou honesto. Eu não podia levar em conta esta coincidência: eram carros de uma frota de táxis.
Olhem, a diversão é tão boa, que já conto bandeirinhas enquanto ando nas avenidas. Nada é mais divertido. Ontem, os números alcançavam 60% dos carros. No mais rigoroso método, à uma hora da tarde. Podem até dizer, era o reflexo da hora. Tudo bem. Mas para quem estava em 1%, por onde ando e olho os carros os números já sobem para 40, 50 ou 60%, a depender da sorte da amostragem. A minha esperança é que cheguem a 99%. É claro, não é muito científico. Mas o objetivo, além de contar carros enquanto caminho, é saber se o sentimento de apoio à seleção é maior do que os malucos pregavam e ainda pregam no movimento “não vai ter copa”. Esses doidos...
Com essa mania de contar carro com bandeirinha, podem até dizer que eu também sou doido. Tudo bem. Entre esses doidos todos, eu sou mais um maluco nacional, a favor da minha seleção. O que faz sentido.
Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.
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