A idéia era apertar o cerco contra o presidente de Cuba, Fidel Castro, e obter alguns votos de exilados cubanos nos Estados Unidos, mas as novas restrições a viagens à ilha enfureceram muitos cubano-americanos que, de outra forma, teriam dado apoio ao presidente George W. Bush.
Fidel, que qualificou as medidas de "atrozes e desumanas", encontrou um eco que parecia impossível no sul do Estado da Flórida, onde vive a maioria dos cerca de 1 milhão de exilados cubanos nos EUA.
A partir de 30 de junho, os cubano-americanos só poderão visitar seus parentes uma vez a cada três anos, em vez de uma vez por ano, e por no máximo duas semanas. Também foram impostas restrições à quantia em dinheiro que os exilados podem gastar em suas visitas e às encomendas enviadas para a ilha, que enfrenta uma crônica escassez de produtos essenciais.
"Não se pode enviar roupas íntimas e sabão? Quem escreveu isso? Quase parece que alguém fez isso para que a medida parecesse absurda", disse Joe García, diretor-executivo da Fundação Nacional Cubano-Americana, um influente grupo de exilados.
A Fundação, por outro lado, elogiou algumas das medidas anunciadas em maio, como o aumento da ajuda aos dissidentes, mas García acha que as restrições às viagens foram impostas pelo setor linha-dura da comunidade cubana. "Não acho que nada que seja contra as famílias possa ajudar o desenvolvimento da democracia", afirmou García.
Os críticos dizem que as restrições servem menos para derrubar Fidel - no poder há 45 anos - do que para conseguir votos dos cubanos para a reeleição de Bush na Flórida, Estado que decidiu a eleição de 2000, quando o presidente superou seu adversário democrata Al Gore por apenas 537 votos.
Há quem considere que as medidas restritivas podem se mostrar contraproducentes, por causa do impacto emocional sobre as famílias. "Como pode se dizer a uma pessoa que, porque deixou para trás um filho ou um pai, não pode visitá-lo?", queixou-se a executiva-chefe da empresa ABC Charters, María Aral, que opera viagens para a ilha.
Cuba diz que 117 mil cubano-americanos e mais de 60 mil outros residentes nos EUA visitaram a ilha no ano passado. Mas muita gente deu apoio incondicional às medidas do governo, entre eles o deputado republicano de origem cubana Lincoln Díaz-Ballart.
Ninoska Pérez, mediadora de um programa de rádio em Miami e dirigente do grupo de exilados Conselho pela Liberdade de Cuba, disse que as novas medidas golpearão duramente o setor turístico cubano, controlado pelo governo comunista. "Quem mais se queixa são as agências de viagens de Miami".
Aral e outros críticos acham que as restrições foram idéia de um grupo de exilados que deixou Cuba pouco depois da revolução de 1959 e que já não tem mais vínculos familiares com a ilha. O diretor do Instituto de Pesquisas sobre Cuba da Universidade Internacional da Flórida, Damián Fernández, disse que Bush irritou ao menos uma parte dos exilados. "O ressentimento dos cubanos provém da polarização do problema da família".
Mas essa irritação não vai necessariamente prejudicar Bush nas eleições. A comunidade cubana deu apoio decisivo a ele nas eleições de 2000, e a maioria dos imigrantes cubanos mais recentes - que têm vínculos familiares mais estreitos com a ilha - são os menos inclinados a votar, inclusive porque muitos deles ainda nem têm cidadania norte-americana.