Seria cômico se não fosse trágico. Luis Nassif, na Coluna Econômica em seu blog hoje, levanta mais uma da mídia que, de tão absurda, chega a ser constrangedora. “Poucas vezes se viu um episódio coletivo de mídia tão nonsense quanto o da divulgação dos resultados do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio)”, afirmou o jornalista. Ele se refere à cobertura dos jornais sobre a melhoria de 10 pontos na média geral do exame, sobre os 500 pontos obtidos em 2009.
“A meta era chegar ao longo da década em 600 pontos – o que significaria melhorar 10 pontos por ano. Apesar do aumento de inscritos – de 828 mil para 1,011 milhão – chegou-se aos 10 pontos”, comentou acertadamente Nassif.
No entanto, o noticiário primou por manchetes que insistiam na tese de que “a maioria dos alunos do ENEM estaria abaixo da média”. O jornal O Globo foi fulminante: “Mais da metade dos estudantes ficou abaixo da média do Enem 2010”. Na UOL, não se deixou por menos: “ENEM "reprova" 63,64% das escolas”. Esse número equivaleria àquelas instituições cujos alunos ficaram abaixo da média do exame.
O óbvio ululante
“Se todos melhoram, a média melhora, mas sempre continuará tendo uma parte abaixo da média e outra acima”, argumenta Nassif. A esse propósito, fomos ouvir uma doutora em Matemática para comentarmos o óbvio: “Para se chegar à média, soma-se o total das notas e se divide o resultado pela quantidade de alunos. E assim sempre teremos notas acima e notas abaixo da média”, comentou Juliana Coelho Chaves, professora do pós graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“A preocupação de qualquer análise desses resultados deve ser com o desvio padrão da amostra. Isto é, quanto uma determinada amostra está distante da média. Assim poderemos saber quais são as escolas com um ensino muito bom e quais são as que têm resultados muito ruins”, afirma a matemática. Juliana frisa que, no mundo ideal, o objetivo seria termos um desvio padrão pequeno.
“Nessa cobertura simplesmente não se entendeu o conceito de média”, frisou a professora. “Esse, inclusive, é um conceito que se dá no primeiro grau”, acrescentou. Para ela, em relação à média, sempre é possível mencionar a metade que ficou acima da média ou a metade que ficou abaixo da média. “A escolha do que frisar é subjetiva e, nesse caso, indica má fé de quem está interpretando os fatos”, comentou.
Insistência na tese
Nassif comentou em seu blog que na entrevista coletiva sobre o ENEM, praticamente todos os jornalistas insistiam na informação de que a maioria das notas tinha sido abaixo da média. “O samba endoidou tanto que a presidente Dilma Rousseff chamou o ministro Fernando Haddad (Educação) ao Palácio, para saber que loucura era aquela”, informou.
De acordo com Nassif, o ministro teria argumentado à chefe de estado que, daqui a vinte, trinta, cinquenta anos, os jornalistas fariam a mesma conta (do percentual de notas abaixo da média do ENEM) e o resultado a que chegariam seria semelhante. Cada uma!
Média pressupõe a metade de cima e a de baixo
Quarta, 14 de Setembro de 2011 às 09:55, por: CdB