Erra-se na ação - e se erra na omissão. O recente livro de memórias do Sr. Robert McNamara é a confissão pungente de um imenso erro político: o envolvimento dos Estados Unidos na situação interna do Vietnã. Diz o ex-secretário da Defesa - e um dos principais responsáveis pela guerra - que eles agiram de acordo com os seus princípios, dentro da luz dos fatos, naquele momento, mas que se encontravam terrivelmente enganados. Na realidade, os Estados Unidos, naquele, como em outros episódios, não agiram de acordo com os seus princípios - se entendemos princípios como aquelas opções tomadas no início de qualquer empreitada histórica. Os princípios norte-americanos, ou seja, aqueles que deram origem à peregrinação para o Novo Mundo e à guerra e obtenção da independência, foram os da autodeterminação, da liberdade, da não-ingerência alheia nas decisões da comunidade nacional. Mas é aí que caímos em uma armadilha da lógica, e fazemos do interesse momentâneo a insânia duradoura e de efeitos não calculáveis.
O eixo da ética é de singular simplicidade: não fazer aos outros o que não admitimos que nos façam. São sempre citáveis as palavras de Benito Juarez, o grande mexicano, a esse propósito: el derecho ajeno es la paz. Privilegiados pela História, que lhes deu como chão um território praticamente inexpugnável, os norte-americanos só tiveram que expelir de seu espaço as tropas coloniais, que ali já se encontravam. Garantida - pelo menos até agora - a sua autodeterminação, passaram a admitir que ela, por si mesma, lhes autorizava desrespeitar a dos outros. Por isso, depois de terem expandido, a custa de outros e mais antigos ocupantes, o seu território, avançaram sobre o México, compraram o Alaska, anexaram o Havaí e Porto Rico e, insaciáveis, ampliaram seus domínios a mais além no Pacífico.
É difícil que uma geração veja os seus próprios erros - e isso está ocorrendo agora, na revisão histórica promovida pelo Sr. McNamara. O seu livro é uma advertência contra a aventura iraquiana de Bush, mas serve também para outros dirigentes políticos.
Aqui, entre nós
As revelações de McNamara, quando ele se encontra na antevéspera do fechamento de sua biografia (está com 88 anos), não convocam somente as preocupações internacionais. Podem servir também para o Brasil de hoje. Não estaremos cometendo um erro, um imenso erro, em não abrir logo o inventário da corrupção do Estado, nestes últimos e confusos anos? Agora, por exemplo, difundem-se as suspeitas de que o Banco Central financiou a aquisição, por um grande banco estrangeiro, de um grande banco brasileiro. Ao que parece, trata-se da compra do Bamerindus, do Sr. José Eduardo de Andrade Vieira, pelo HSBC. Como todos se recordam, o banco foi adquirido de surpresa. Informou-se, na época, que o Sr. Pedro Malan viajou inesperadamente a Londres, a fim de fechar o negócio - sem que o sr. José Eduardo soubesse de coisa alguma. Nesse caso específico, há mais do que uma lesão ao interesse nacional. Há uma ofensa direta e pessoal ao controlador do banco, que fora um dos mais dedicados construtores da vitória eleitoral do presidente da República. Não só lhe coubera, como homem de grandes negócios, cuidar da arrecadação de fundos de campanha, como cedera o seu próprio avião para o deslocamento do candidato. Como ofensa suplementar ao antigo amigo, o presidente voltou a usar o mesmo avião - confiscado, no processo de intervenção no banco, pelo Banco Central. Ao agir dessa forma, talvez o antigo presidente da República estivesse exagerando a sua interpretação intelectual da famosa ética weberiana da responsabilidade. O Sr. José Eduardo, além da queda, sofreu o coice.
Tudo isso nos remete aos cuidados do dia. O governo obteve importante vitória parlamentar, impedindo a CPI dos Bingos, mas provavelmente tenha sofrido gravíssima derrota histórica. Os norte-americanos, conforme McNamara, acreditavam estar agindo de acordo com seus princípios. No atual governo, há quem acredite q