Para Sonia O'Sullivan foi como treinar em altitude. Para Evelyn Ashford, foi "melhor do que uma loja cheia de vitaminas ou qualquer outra coisa".
Apesar da exigência física e emocional, algumas mulheres encontraram na maternidade incentivos para maiores sucessos no esporte.
"Há toda uma escola que afirma que as várias mudanças hormonais que acontecem às mulheres durante a gravidez têm efeitos duradouros: eles ficam com elas e as tornam melhores competidoras", disse à Reuters o sociólogo Ellis Cashmore.
"Elas ficam mais fortes e mais robustas, e têm energia em alguns casos para provas de maiores distâncias que ao contrário não teriam", disse Cashmore, professor de cultura, mídia e esporte na Universidade Staffordshire, da Grã-Bretanha.
Há três grandes explicações para o argumento fisiológico: estudos mostram que o consumo de oxigênio, conhecido como capacidade aeróbica, pode crescer até 30 por cento durante a gravidez.
Níveis mais altos de hormônios, principalmente progesterona, podem melhorar a força e a flexibilidade de músculos.
E alguns fisiologistas argumentam que o parto pode aumentar de forma permanente as barreiras contra a dor -- sem dúvida um incentivo para atletas, principalmente corredoras de longa distância.
Caso as Olimpíadas de Atenas não tenham surpresas, pelo menos uma mãe deverá ganhar uma medalha.
Mães ganharam medalhas de ouro no atletismo em pelo menos 10 dos 14 Jogos desde a Segunda Guerra Mundial. Entre elas estão a holandesa Fanny Blankers-Koen, que levou quatro ouros em 1948, e a etíope Derartu Tulu, vencedora dos 10.000 metros em 2000.
Tulu, uma das maiores fundistas da história, pretende defender seu ouro de Sydney em Atenas,, no mês de agosto.
VOLTA DE JONES
Denise Lewis, da Grã-Bretanha, é outra mãe que deverá competir, bem como a australiana Kerryn McCann.
Depois de parar um ano para ter um bebê, McCann venceu a maratona dos Jogos da Comunidade Britânica em 2002. Ela retomou os treinamentos depois de ter o segundo filho.
O maior feito pode ser atingido pela norte-americana Marion Jones, caso ela resolva seus problemas relacionados a doping.
Depois de ganhar três ouros na Austrália, a mulher mais rápida do mundo teve um filho e voltou a competir.
Mas Cashmore disse que há muitas mulheres que não voltam ao melhor nível de competição após a gravidez.
"É necessário algum tipo de mecanismo psicológico mais importante -- porque muitas atletas voltam com os supostos benefícios fisiológicos e não conseguem nada", disse Cashmore. "Só posso acreditar que psicologicamente há mulheres diferentes."
Kirsty Wade, do País de Gales, que ganhou três títulos de atletismo nos Jogos da Comunidade Britânica nos anos 1980, voltou a competir depois de dar à luz, mas não retomou seus melhores tempos.
"Você deixa de se orientar somente para você", disse. "Você tem um bebê que toma muito de suas energias. Para mim, isso talvez tenha tirado parte da vontade no atletismo."
Ter filhos amplia os horizontes das atletas e as tornam menos concentradas na competição, disse Cashmore.
DESCANSO
Para a fundista irlandesa Sonia O'Sullivan, a maternidade foi um incentivo.
"Treinar durante toda a gravidez é comparável a treinar em altitude", disse ela à Reuters.
Ela ganhou a única medalha olímpica da Irlanda em 2000, um ano após o nascimento de sua filha. Ela teve uma filha em 2002 e agora quer ir além da prata conquistada nos 5.000 metros em Sydney.
Cuidar dos filhos ajudou a aliviar a frustração e a monotonia do treinamento, disse ela em entrevista por telefone.
"Definitivamente ajuda a prolongar a carreira, por dar um ano de folga -- um tempo das corridas e dos treinos. Não há tempo de sobra. Sempre alguma das crianças vai fazer ou dizer algo que lhe fará sorrir e você esquece totalmente."
"Trouxe muito balanço para uma vida que seria agitada, caótica, às vezes irritante", disse Marion Jones em entrevista recente a um jornal.
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