O sotaque é reconhecidamente francês, o nome também, mas não se engane: Marianne Peretti é a parisiense mais brasileira que existe. A artista plástica, de renome internacional, esteve no Superior Tribunal de Justiça (STJ) na manhã dessa sexta-feira (12) para revisitar suas obras e avaliar a manutenção do legado artístico deixado em Brasília. A visita é parte de um projeto intitulado Documento Marianne Peretti, em fase de produção pela B52 Desenvolvimento Cultural, que, em 2012, promove uma série de eventos, além de um documentário, para celebrar os 60 anos de atividades da escultora.
“Estamos divulgando aqui no STJ, em primeira mão, os eventos que vão homenagear essa artista incrível que é Marianne Peretti. Ela já está trabalhando nas obras da exposição. E também estamos produzindo, além do documentário, um livro sobre a trajetória dela”, explicou Tatiana Braga, diretora-executiva da B52.
Filha de pai brasileiro e mãe francesa, Marianne Peretti nasceu e viveu em Paris, onde estudou desenho e pintura na École Nationale Supérieure des Arts Decoratifs, entre outras. Já no Brasil, seu trabalho ganhou dimensão com vitrais e obras monumentais, além de projetos realizados na Europa.
A amizade e a parceria de longa data entre Peretti e Oscar Niemeyer trouxeram o traço único da artista à nova capital da República. Aqui se encontra o mais significativo conjunto de obras da escultora, elaboradas em fina harmonia com os prédios monumentais criados pelo arquiteto. “O artista tem mais liberdade que o arquiteto, mesmo se ele for genial como Niemeyer. Ele queria as coisas prontas muito rápido, mas me deu total autonomia para criar o que eu quisesse”, recorda Peretti, uma jovem de mais de 80 anos, pequena, frágil, simples e dona de um sorriso generoso, arrebatador.
As obras de Peretti em Brasília podem ser apreciadas nos saguões do Congresso Nacional, no Panteão da Liberdade, na Igreja São Pedro de Alcântara, no Palácio do Jaburu etc. Entretanto, são os vitrais da Catedral Metropolitana e o painel artístico da fachada do Superior Tribunal de Justiça os grandes destaques da artista na cidade.
Na visita matinal ao STJ, atenta e crítica, Marianne não perdia um detalhe sequer. “Esses vidros mais claros deviam estar mais iluminados”, ressalvou, ao rever a obra “A Mão de Deus”, instalada na Sala do Pleno do Tribunal. “A forma redonda externa, que também faz parte da obra, não devia estar pintada de cinza, mas com um colorido mais forte. A luz precisava vir de fora, pois esse olho azul é feito com vidros alemães muito bonitos, radiantes”, completou.
“Esse é um momento histórico, pois nem sempre o artista tem a oportunidade de rever seu trabalho e fazer ajustes e sugestões. É uma consultoria privilegiada que o STJ está recebendo”, avaliou Tatiana Braga. O diretor-geral em exercício da Casa, Sílvio Ferreira, tomou nota de todos os apontamentos e garantiu à escultora que as correções de iluminação na obra serão realizadas.
Marianne também elogiou a sede do STJ, impressionada com a manutenção impecável dos jardins. “Na última vez que eu estive aqui não era tão perfeito. Os jardins são lindos!”, sorriu. Perguntada sobre os motivos que a levaram a criar “A Mão de Deus”, ela confessa: “Não há, vem de cima, só pode ser isso. Pura inspiração, iluminação.”
Mas Marianne Peretti não para. Além das esculturas que vai apresentar na exposição de 2012, a artista está finalizando uma sequência de DNA com mais de três metros de altura que vai ornar o Museu de Ciência da Paraíba, em João Pessoa. “Ela tem uma vitalidade maravilhosa, e se debruça pessoalmente sobre os desenhos colocados no chão. Ela vistoria tudo”, conta Tatiana Braga, que acompanha a artista em todas as visitas para a elaboração do documentário.
Após conferir o painel artístico da fachada do Tribunal – “que deu um trabalho enorme para os engenheiros calcularem”, lembra –, Marianne Peretti se despediu do STJ feliz com o que viu: “É impressionante ter conseguido esse resultado tão fluido, tão leve e dinâmico. Estou muito feliz em ver minha obra ser reconhecida como o símbolo deste órgão.”
Foto 1 - Marianne Peretti diante de sua obra “A Mão de Deus”, na Sala do Pleno.
Foto 2 - A escultora e os recortes artísticos que criou na fachada do STJ.