Marco Ricca estreia bem na direção com "Cabeça a Prêmio"
Cabeça a Prêmio, que marca a estreia na direção de longas do ator e diretor de teatro Marco Ricca (O Invasor), é, até certo ponto, sobre famílias de contraventores. No caso, dois irmãos pecuaristas e também traficantes de drogas para aumentar a renda e continuarem bem de vida. O roteiro é assinado pelo próprio diretor e Felipe Braga e contou com a colaboração do escritor Marçal Aquino (O Invasor, Matadores), autor do livro homônimo adaptado no filme.
Sexta, 20 de Agosto de 2010 às 08:20, por: CdB
Cabeça a Prêmio, que marca a estreia na direção de longas do ator e diretor de teatro Marco Ricca (O Invasor), é, até certo ponto, sobre famílias de contraventores. No caso, dois irmãos pecuaristas e também traficantes de drogas para aumentar a renda e continuarem bem de vida.
Miro (Fúlvio Stefanini, de Caixa Dois) e Abílio (Otávio Müller, de A mulher do meu amigo) não chegam a desfrutar do poder político e monetário dos Corleone de O Poderoso Chefão, mas também não são pé de chinelo, como aquela família que rouba carros em Nossa Vida Não Cabe num Opala.
O roteiro é assinado pelo próprio diretor e Felipe Braga e contou com a colaboração do escritor Marçal Aquino (O Invasor, Matadores), autor do livro homônimo adaptado no filme. A narrativa de Cabeça a Prêmio move-se dentro de um grupo de personagens que cercam essa família. Como figuras de ficção, alguns são mais desenvolvidos, outros não levantam o voo prometido na primeira metade -- como é o caso do matador Brito, vivido por Eduardo Moscovis, cuja história torna-se acessória na trama.
Isto vem de uma mudança de foco da obra original para a adaptação cinematográfica. Há duas narrativas. A primeira se concentra em Brito e seu colega de profissão, Albano (Cássio Gabus Mendes, de Chico Xavier), e a segunda em Elaine (Alice Braga) e o piloto de avião Denis (o uruguaio Daniel Hendler, de As Leis de Família). Ela é a filha rebelde e mimada de Miro, que vive uma paixão tórrida com o funcionário do pai, cuja vida passa a correr risco à medida em que o romance do casal ganha força.
Denis é a testemunha que pode colocar o pai e o tio de Elaine na cadeia. Por isso, a moça tem um dilema moral forte e torna-se a personagem mais interessante. A certa altura, seu namorado diz que tudo dará certo para eles, ao que ela comenta:
– Para tudo dar certo pra gente, é preciso que tudo dê errado para o meu pai.
Cabeça a Prêmio trabalha em cima desses personagens humanamente contraditórios que cometem crimes, mas também atos de bondade. O próprio Brito, um matador de poucas palavras e emoções contidas, explode de amor que se transforma em ciúme quando conhece uma dona de bar (Via Negromonte, de Chico Xavier). A melhor definição para estes pessoas vem de seu colega Albano:
– A gente é bom. Só que está do lado errado.
Quando um grande conflito interno como esse fica evidente, é que o filme de Ricca ganha força.
A narrativa passa-se numa região fronteiriça entre Brasil, Bolívia e Paraguai, o que funciona como uma metáfora para os personagens de Cabeça a Prêmio, que transitam sem muitos escrúpulos entre os dois lados da lei ou de sua moral pessoal.
Ator experiente de cinema, teatro e televisão (atualmente esta no telinha na novela Ti-ti-ti), Ricca estreia na direção de cinema com segurança e boa condução dos atores e da narrativa. Alguns problemas, como o distanciamento emocional e a falta de desenvolvimento de algumas tramas, não diminuem a qualidade deste trabalho promissor.