Aproveitando ainda a metáfora do quadro de van Gogh, diria que em sua rica e tumultuada história, a teoria social do marxismo, de Marx, singra tanto o mar revolto das revoluções quanto a calmaria dos mares reacionários
Por Val Carvalho - do Rio de Janeiro
Escrevi esse texto introdutório à teoria marxista (1) tendo em minha frente a reprodução do quadro de van Gogh expressando um mar revolto e nele alguns barcos à vela teimando em singrar sob um céu de tempestade. Pensei: aí está uma imagem perfeita para sintetizar o lugar e o papel da teoria marxista no “mar revolto” das lutas de classes. Como no barco do quadro, o pensamento marxista também luta para navegar em condições dificílimas; e sem perder o rumo!
Pensei sobretudo naquele jovem militante enfrentando forças reacionárias aparentemente impossíveis de derrotar, mas mesmo assim sem desistir de lutar. No jovem que começa a fazer as perguntas certas para conhecer contra o quê está lutando e principalmente para conhecer melhor o seu próprio arsenal de conhecimentos. Foi para esse jovem que luta que escrevi esse “roteiro de viagem” da teoria marxista.
Um texto básico de introdução ao pensamento marxista com o objetivo maior de motivá-lo a ler diretamente os fundadores do marxismo, ou seja, Marx e Engels (2) . Uma ideia que é expressa melhor na bela e forte canção, “Castanho”, de Lenine, quando diz: “Fui batizado no fogo, ouvindo e cantando/Quem bebeu água da fonte não vai se perder.”
Procurei combinar a minha experiência pessoal no trato desse complexo tema, com uma interpretação não doutrinária do marxismo – na medida das minhas possibilidades.
Dividi o presente trabalho em quatro capítulos e uma parte de recomendações bibliográficas:
1) Porque sou marxista;
2) Resumo do trabalho teórico de Marx;
3) Caminhos para o método; 4) Cronologia sumária de Marx e 5) Roteiro de obras introdutórias ao pensamento de Marx e a bibliografia das principais obras de Marx e Engels.
1. Por que sou marxista!
Aproveitando ainda a metáfora do quadro de van Gogh, diria que em sua rica e tumultuada história, a teoria social do marxismo singra tanto o mar revolto das revoluções quanto a calmaria dos mares reacionários. Nesse caso, mesmo parecendo estagnada, a teoria marxista se mantém sempre atenta, auscultando, investigando, descobrindo as correntezas do mar profundo.
Na minha juventude era moda ser marxista. Mas depois da derrubada do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, no início dos anos 90 do século passado, o marxismo foi esquecido e tratado como “cachorro morto” pela mídia burguesa, em festa. A partir, no entanto, da grande crise de 2008, a maior crise do capitalismo desde a de 1929, Marx é retirado das estantes empoeiradas e novamente lido, estudado e citado. “Marx tinha razão”, chegavam a bradar alguns economistas mais afoitos.
Quanto à minha posição, em todos esses altos e baixos sempre me mantive marxista. Não por fé cega, mas por necessidade de entendimento da realidade, de uma bússola teórica para a luta social. Um militante marxista é um pesquisador nato. Sempre curioso para entender o que está por trás dos acontecimentos e de suas explicações nos jornais. No início eu sofria da doença do dogmatismo, sem disso ter consciência, é claro
Mas um saudável ceticismo acabava por romper essa casca dogmática e me obrigava a buscar explicações sobre as contradições e as mudanças da realidade. Fui ficando cada vez mais intolerante com um vício muito comum entre marxistas dogmáticos: as explicações muito genéricas, incapazes de verem as determinações particulares e que por isso mesmo não explicavam nada.
Lia e relia várias obras de Marx buscando apreender o método dialético que sabia ser o fio condutor da análise. Segundo apontava Marx, queria entender o método como algo inerente ao próprio objeto, e não uma “chave mágica” para explicar qualquer coisa. Esse é o grande obstáculo inicial se não de todos pelo menos da grande maioria dos iniciantes. A tendência natural de nosso raciocínio é usar a lógica formal, que não admite o contraditório, aquela forma de pensar que está profundamente arraigada no senso comum.
A semente da dialética contra a viseira do dogma.
Ao superar gradualmente os limites desse tipo de pensamento fui redescobrindo nas obras de Marx o verdadeiro sentido dialético e materialista de seu método. Para Marx, o método é parte do conteúdo do objeto que se analisa; é a apropriação, pelo pensamento, de seu movimento real. É um método, portanto, que está num patamar bem acima do método da lógica formal, que representa uma fórmula externa ao objeto pesquisado.
Em suas obras não encontraremos nenhuma definição fixa de método, pela simples razão de que ela se move e enriquece o seu conteúdo à medida que Marx vai descobrindo novas determinações e mediações em suas análises.
Pela minha experiência percebi que o modo como um militante revolucionário chega à teoria de Marx, o tipo de “semente” teórica que é plantado em sua consciência, vai definir qual modelo de marxismo ele abraçará, o dialético ou o doutrinário. Neste último caso terá um entendimento superficial e dogmático do marxismo, que provavelmente vai “quebrá-lo” na primeira grande derrota ou isolá-lo comodamente numa dessas seitas doutrinárias.
Entretanto, se aquele militante entra no edifício teórico do marxismo pela porta da leitura direta e crítica das obras de Marx, entendendo-as não como dogmas mas como teoria social e, enquanto tal, que acompanha as mudanças da realidade, ele certamente vai ajudar a transformar uma derrota em vitória, um problema em solução. O jovem militante sai de cada crise com o pensamento dialético mais revigorado e mais preparado para avançar.
É esse processo que queremos mostrar aqui. Afinal, o que é teoria senão a reprodução ideal do movimento real da sociedade, da luta de classes? Assim é, acima de tudo, a teoria marxista, e não um sistema fechado de verdades absolutas como muitas vezes tem sido interpretado.
Marx histórico
Como a teoria social de Marx é a expressão teórica do dinamismo histórico da sociedade, os ideológicos burgueses nunca conseguiram refutá-la de fato. Eles combatem esse poderoso pensamento marxista combinando dois modos de ataques: censurando Marx e ao mesmo tempo criando o seu próprio “Marx” para poderem criticar. Um “Marx” determinista econômico, que reduz todas as explicações da sociedade a um suposto “fator econômico”.
É esse marxismo desidratado que os jovens tomam conhecimento na universidade e pela mídia. Isso para deixar de fora as barbaridades que são inventadas contra Marx pela extrema-direita e as religiões fundamentalistas.
Como em qualquer teoria, conforme já vimos, o pensamento de Marx é histórico e constituído por verdades relativas. Algumas dessas verdades serão válidas enquanto durar historicamente o capitalismo. Outras caducaram e caducarão no futuro com a evolução desse modo de produção.
Por exemplo: sob o capitalismo a exploração da força de trabalho da classe operária é permanente, mas as suas formas de exploração são mutáveis, como veem mostrando as significativas mudanças nas tecnologias e relações de trabalho, especialmente na estrutura da classe operária. Este é um mundo imenso a ser investigado do ponto de vista da teoria social do marxismo.
Teoria unificada
Desse modo, não se avança um milímetro no conhecimento do capitalismo atual apenas repetindo as categorias econômicas descobertas por Marx e expostas em O Capital. Um pesquisador marxista sério partiria desse sistema de categorias, essencial para o entendimento do movimento do capital, mas procuraria descobrir, por sua conta e risco, novas categorias econômicas que explicassem as transformações contemporâneas.
É exatamente o domínio do método marxista, domínio este que somente se consegue estudando Marx e Engels diretamente, o que cria as condições para se fazer a análise do capitalismo atual e de seus antagonismos internos.
Como disse o grande teórico marxista húngaro Georg Lukács, “A ortodoxia, em matéria de marxismo, refere-se exclusivamente ao método”. Está certíssimo pois não há nada “sagrado” nas ideais de Marx. Ao analisar a realidade, Marx não está nem um pouco preocupado com as “verdades eternas”, mas unicamente com o movimento real do seu objeto de investigação, o modo de produção capitalista. Ao responder a pergunta “Que é o marxismo?” Lênin deu a mais certeira definição da teoria marxista: “a análise concreta da situação concreta”.
A teoria social de Marx expressa um todo articulado, ao contrário do que se costuma fazer com o ensino do marxismo nas universidades, que o separa em partes autônomas. Sua teoria não é apenas econômica, nem histórica, nem filosófica nem muito menos sociológica. Ela é tudo isso unificado, não por um sistema formal, mas pela natureza essencial de seu método interdisciplinar. Em Marx, a teoria econômica não está separada das lutas de classes nem de sua visão da história, sendo todos esses elementos vistos como uma totalidade, que constitui a concepção de mundo fundada por ele e por Engels.
Método dialético – “Upgrade” do pensamento para entender os antagonismos sociais.
Em Marx não encontraremos nenhuma obra expondo o seu método dialético. Ele não fez um texto definindo “regrinhas” desse método, mas apenas referências esparsas e bem gerais sobre seu significado e algumas de suas categorias mais fundamentais. Isso tem uma razão de ser muito clara: o método marxista só pode ser encontrado no interior do próprio objeto analisado. É inseparável dele.
Marx parte do fato empírico e, com a “força da abstração”, como disse no primeiro prefácio de O Capital, faz a investigação exaustiva, descobrindo as determinações do objeto, suas contradições, suas conexões e suas mediações internas. A partir daí o método elabora a síntese de todas essas determinações e retorna ao fato empírico. Mas agora este será visto com o seu rico sistema de determinações e categorias.
Para Marx o fato empírico só é concreto “porque é a síntese de muitas determinações, isto é, a unidade do diverso”. É desse modo que Marx descreve o seu método na célebre passagem da Introdução aos Manuscritos de 1857/58. Em resumo, com o método dialético o pensamento percorre o caminho da ascensão do abstrato ao concreto para poder apreender o movimento real do objeto, a concretude da realidade estudada. Como ele diz, é assim que o pensamento consegue apreender o concreto.
Conforme Lênin, nos seus Cadernos Filosóficos, “Da intuição viva ao pensamento abstrato e ‘dele à prática’ – tal é o caminho dialético do conhecimento do verdadeiro, do conhecimento da realidade objetiva”. Mas veremos tudo isso novamente mais adiante.
Portanto, para apreendermos com profundidade o método dialético, insistimos, não há outro caminho senão estudar Marx, ler O Capital. Assim o fizeram Lênin e todos os grandes revolucionários marxistas da história. Como disse Lênin nos já citados Cadernos, “Se Marx não nos deixou a Lógica (com L maiúsculo), deixou-nos a lógica de O Capital”.
Embora não seja um fundador, Lênin é considerado um dos clássicos do marxismo. A sua riquíssima obra teórica e prática foi fundamental para o movimento marxista conseguir romper com a estagnação do reformismo “economicista” da II Internacional e retomar o seu desenvolvimento dialético. Nesse sentido, Lênin revitalizou, em novas condições históricas, a importância do fator subjetivo da revolução, algo que Marx sempre destacou.
Com isso ele pode desenvolver a teoria e dirigir a Revolução Russa de 1917 de acordo com a nova fase do capitalismo mundial – o imperialismo. O seu estudo é um complemento necessário para a compreensão do método dialético, em especial para a apreensão da relação entre teoria e prática. Claro que é preciso estudá-lo no contexto de época e longe de qualquer interpretação stalinista. Nesse trabalho citaremos frequentemente Lênin, em especial o seu estudo da dialética de Hegel, resumida nos seus Cadernos Filosóficos (Obras Completas) e nos Cadernos sobre a dialética de Hegel (2011, Editora UFRJ).
Resumo do trabalho teórico de Marx.
Diferentemente das facilidades o mundo atual, tanto para se pesquisar quanto para se conhecer o marxismo, em seu tempo Marx se deparou com um conjunto de obras que não contemplava suas inquietações intelectuais. Eram pensamentos filosóficos, teorias econômicas e concepções socialistas muito ricas, mas nenhuma delas em condições de lhe permitir a compreensão profunda do vigoroso desenvolvimento da sociedade capitalista que acontecia à sua frente. Diante disso, Marx teve que fazer o seu próprio caminho.
Sorte a nossa ele ter sido um gênio do pensamento.
As três fontes do marxismo.
Lênin apresentou uma sistematização objetiva da teoria marxista que tem ajudado muito a sua compreensão. Num artigo de 1913, As três fontes e as três partes integrantes do marxismo, ele mostra o marxismo como um edifício sólido, com suas partes bem integradas e coerentes. Demonstra que o “marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês”.
Essas são as origens teóricas, os três grandes pilares do edifício do marxismo. O método dialético e materialista, extraído criticamente da filosofia alemã, sobretudo de Hegel e de Feuerbach, que deu a virada no pensamento de Marx. A teoria do valor-trabalho, dos economistas clássicos ingleses Adam Smith e David Ricardo, que abriu caminho para Marx descobrir a mais-valia, a forma capitalista da exploração da classe operária. As ideias do socialismo utópico francês, juntamente com a luta de classes e o engajamento revolucionário dos operários franceses.
São exatamente esses três aspectos que os teóricos burgueses atacam sistematicamente, pois sabem que a derrubada de apenas um desses pilares é suficiente para fazer desabar todo o edifício do marxismo. Não se trata aqui do raciocínio “tudo ou nada”, mas do fato de cada pilar ser igualmente a expressão da concepção de mundo de Marx.
Desse modo, sem o seu método dialético, o marxismo se torna um sistema dogmático, cego, incapaz de descobrir o caminho da revolução. O fim do conceito de valor-trabalho leva junto o conceito de mais-valia, desarmando assim os operários da explicação científica da exploração de sua força de trabalho e esvaziando a ideia da necessidade da revolução. Finalmente, sem a luta de classes e o objetivo revolucionário, o marxismo vira mais uma corrente reformista do capitalismo.
Vemos que as três partes integrantes do marxismo têm uma profunda interdependência entre si, cujo traço de união é o de ser um todo revolucionário. Marx foi ao mesmo tempo teórico e ideólogo da revolução proletária. Não há hipótese de alguém ser verdadeiramente marxista sem ter feito a opção ideológica pelo lado da classe operária e da revolução socialista. Veremos isso mais adiante.
A ideologia alemã – 1844/45
No famoso Prefácio à Contribuição da Economia Política, de 1859, é o próprio Marx quem descreve a trajetória de seu trabalho teórico. Nele conta como, junto com Engels, fizeram em 1844/45 a crítica da filosofia clássica alemã, que acabou não sendo publicada. Trata-se da obra A ideologia alemã, somente publicada em 1932 (3) . Marx disse que essa obra conjunta representava um “ajuste de contas com a sua ideologia anterior”.
Significa dizer que Marx e Engels fizeram a travessia para o outro lado do rio da ideologia de classe, para o lado do comunismo e da luta de classes do proletariado. Todos nós, que nos tornamos marxistas, de algum modo fizemos também essa “travessia do rio”.
Isso não significa que com A ideologia alemã a teoria marxista já estivesse pronta e acabada. O pensamento de Marx foi elaborado na duríssima caminhada teórica e prática de toda a sua vida. Não foi fruto de alguma “revelação”. Ao final de quase 15 anos de estudos críticos da economia política, nos quais analisava o modo de produção capitalista, Marx tem nos Manuscritos de 1857/58 – os chamados Grundrisse, outro ponto de chegada. Depois dos Manuscritos de 1861 e de 1863, Marx tem finalmente o seu ponto de chegada tão esperado, o primeiro volume de O Capital, publicado em 1867 (4).
O Capital fundamenta cientificamente a lei essencial do modo de produção capitalista, a lei da mais-valia, que é a forma histórica como o capital se apropria do trabalho excedente produzido pela exploração da força de trabalho de operários assalariados. O conhecimento da lei capitalista de exploração da força de trabalho é condição essencial para o desenvolvimento da consciência de classe (5) do proletariado, ou classe trabalhadora, como é correntemente denominado no Brasil.
(Continua)
(1) Certos autores usam o termo marxiano para distinguir a produção teórica de Marx da chamada tradição marxista. Há embutida nessa distinção a justa crítica às interpretações dogmáticas feitas pelo stalinismo. Mas aqui adotarei unicamente o termo marxista, apenas por ser o mais usado.
(2) Numa nota ao seu livro "Ludwig Feuerbach..." Engels dizia que "Marx via mais longe e tinha uma visão mais ampla e mais rápida que todos nós. Marx era um gênio; nós no máximo, tínhamos talento". Engels se colocava como o "segundo violino" da obra comum. A partir de agora ao citarmos Marx daremos como implícita a obra de Engels. No entanto, não endossamos as ideias que querem desqualificar Engels e contrapô-lo à Marx.Vejo o marxismo como resultado da obra comum de Marx e Engels, como o próprio Marx admitiu mais de uma vez.
(3) Assim como os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, também A Ideologia Alemã só foi publicada no século XX. Mesmo assim são de enorme importância para entendermos a teoria marxista, pois expressavam o que se passava na cabeça de Marx. O mesmo ocorre com outros manuscritos posteriores, como o sempre citado Manuscritos de 1857/58, mas conhecidos pela denominação em alemão, "Grundrisse".
(4) É referência importante nessa análise o livro de José Paulo Neto, “O Leitor de Marx”, 2012, Civilização Brasileiro e o seu Curso em vídeo do método de Marx, disponível no Youtube.
(5) Teoria revolucionária e consciência de classe são coisas diferentes, embora constituam o mesmo processo social que Marx chama de "práxis". Quando os operários, além de sentirem, também souberem como são explorados pelo capital, e consequentemente tenham consciência de que constituem uma classe social; e uma classe que luta contra a classe dos capitalistas, isso é consciência de classe; esse é o caminho da revolução e a teoria revolucionária é o seu norte. Como sintetizou Lênin: "sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário" (ou consciência revolucionária de classe).
Val Carvalho é articulista do Correio do Brasil.