O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu-se nesta quarta-feira com empresários para discutir medidas de incentivo aos setores da construção civil e de infra-estrutura. As propostas devem fazer parte do pacote de ajuste complementar que o governo pretende lançar ainda neste mês para enfrentar os efeitos da crise financeira internacional.
Participaram do encontro no Ministério da Fazenda o vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José de Freitas Mascarenhas, e os presidentes da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Paulo Safady Simão; da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider; da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Cláudio Elias; e do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), Paulo Butori.
Pela manhã, Mantega participou de reunião, no Palácio do Planalto em que esteve presente a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Entre os temas discutidos esteve o resultado do lançamento, na véspera, após oito meses sem captar recursos do exterior, dos títulos do Tesouro Nacional no valor de US$ 1 bilhão denominados em dólar nos mercados europeu e norte-americano. Com prazo de dez anos, os papéis têm vencimento em janeiro de 2019.
Essa foi a primeira emissão de títulos da dívida externa desde o agravamento da crise financeira internacional. O Brasil seguiu o exemplo de outros países latino-americanos que voltaram a pegar dinheiro dos investidores internacionais nas últimas semanas. No mês passado, o México havia captado recursos no exterior. A Colômbia também emitiu US$ 1 bilhão em títulos, nesta terça-feira.
A crise, no entanto, levou os juros dos papéis brasileiros a registrarem a maior taxa para títulos de dez anos desde 2006. De acordo com o Tesouro Nacional, as emissões renderam juros de 6,127% ao ano, contra 6,24% obtidos em novembro de 2006. Os juros medem a demanda pelos títulos. Quanto menor a taxa, maior o interesse dos investidores nos papéis. Em épocas de turbulência financeira, no entanto, os juros precisam ser maiores para atrair compradores.
Desde o final de 2006, o governo brasileiro havia feito outras duas emissões de títulos de dez anos. Em abril de 2007, o Tesouro lançou papéis com juros de 5,88% ao ano. Em maio do ano passado, semanas após o Brasil conquistar o grau de investimento (garantia de que o país é seguro para os investidores estrangeiros), a taxa havia sido de 5,29%, a menor da história.
O Tesouro Nacional informou ainda que pretende leiloar mais US$ 25 milhões em títulos denominados em dólar no mercado asiático. De acordo com o Tesouro, os juros mais altos não representaram um revés para o governo brasileiro porque as taxas foram mais baixas que a da Colômbia, que também emitiu títulos com juros de 7,5% ao ano.
Os juros foram maiores do que os 5,98% ao ano pagos pelo México em dezembro, mas o Tesouro alegou que os papéis mexicanos ficaram 3,9 pontos percentuais acima dos juros dos títulos norte-americanos. No caso do Brasil, a diferença ficou em 3,7 pontos percentuais.
As taxas dos papéis dos Estados Unidos servem de parâmetro mundial para as emissões. Para os investidores, quanto maior a diferença em relação aos juros norte-americanos, maior o risco de calote dos países que emitiram os títulos.
Segundo fontes do Tesouro, a emissão desta terça-feira não teve como objetivo conseguir o máximo possível de recursos no exterior. De acordo com a equipe econômica, a operação faz parte da estratégia do Tesouro em demonstrar que o país está com a economia forte para captar dinheiro dos investidores internacionais, o que ajudaria inclusive empresas privadas a emitirem títulos no mercado externo.
Desconto
Embora Brasil e Colômbia tenham conseguido vender, cada um, US$ 1 bilhão em bônus de 10 anos, à medida que o mercado de dívida dá sinais de recuperação, as duas nações tiveram que oferecer descontos para atrair os investidores. O movimento é um importante barômetro para nações e empresas interessadas em captar recursos no exterior, já que a crise de crédito simplesmente fechou o mercado de novas emissões na segunda metade do ano passado.
– Os investidores não estão com o modo de aversão a risco ligado neste momento. Pelo preço certo, as pessoas estão dispostas a colocar o dinheiro para funcionar – afirmou, nesta quarta-feira, Cristina Panait, estrategista de dívida de mercados emergentes do fundo Payden & Rygel, de Los Angeles.
Além das operações de Brasil e Colômbia, Peru, Filipinas e Turquia parecem estar preparando uma volta ao mercado internacional, disse Panait e outros gerentes de fundos.
"A mensagem-chave é que o mercado continua aberto para tomadores de empréstimo de qualidade dos mercados emergentes", afirmou a RBC Capital Markets em uma nota para clientes.
Nas operações do Brasil e da Colômbia, os preços ficaram acima das curvas de rendimento, indicando que os emissores tiveram que garantir bons retornos para garantir a captação de recursos.
– Os emissores reconheceram que os mercados de crédito ainda estão apertados e que você não pode trazer uma nova emissão na atual curva de rendimento. Ninguém fará o acordo – afirmou um gerente de fundo de investimentos em Nova York.