Rio de Janeiro, 12 de Janeiro de 2026

Manobra na Câmara pela reforma trabalhista impõe estilo ‘tratoraço’

Para a oposição, a retirada da urgência na reforma trabalhista era importante para "pacificar" a Casa e evitar o ‘tratoraço’. No caso da reforma da Previdência, foi possível chegar a um acordo para votação da PEC 287 em 2 de maio

Quinta, 20 de Abril de 2017 às 10:19, por: CdB

Para a oposição, a retirada da urgência na reforma trabalhista era importante para "pacificar" a Casa e evitar o ‘tratoraço’. No caso da reforma da Previdência, foi possível chegar a um acordo para votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287 em 2 de maio

 

Por Redação, com RBA - de Brasília e São Paulo

 

A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta-feira, o regime de urgência para o substitutivo ao Projeto de Lei 6.787, que mexe com a legislação trabalhista. Era uma nova tentativa de aprovar a urgência, rejeitada na sessão de ontem, em uma derrota do governo. Desta vez, foram 287 votos a favor, 30 acima do número necessário e 57 a mais do que na véspera, e 144 contrários, menos que os da noite passada.

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Maia impõe o estilo 'tratoraço' ao determinar nova votação para a reforma trabalhista

A base governista tentava votar de qualquer maneira, enquanto a oposição queria mais tempo. O presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ignorou recurso contra o requerimento de urgência e esticou o prazo para garantir quórum maior do que o da véspera. A estratégia irritou a oposição.

— Desse jeito não tem mais relação política aqui dentro. O governo não pode agir desse jeito, não pode tratorar — disse o líder da minoria, José Guimarães (PT-CE).

Para ele, a retirada da urgência era importante para "pacificar" a Casa. O deputado lembrou que, no caso da reforma da Previdência, foi possível chegar a um acordo para votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287 em 2 de maio. 

Na noite passada, o Plenário rejeitou o requerimento de urgência por insuficiência de votos: foram 230 a favor, quando o mínimo necessário é 257. Outros 163 votaram contra. Aprovada a urgência, não é possível pedir vista ou fazer mais emendas na comissão especial que discute o substitutivo, feito pelo deputado Rogério Marinho (PSDB-RN).

— Essa história de ser ao mesmo tempo presidente da Câmara e líder do governo não é algo que seja razoável — criticou o líder do PSOL, Glauber Braga (RJ), referindo-se a Rodrigo Maia.

Estilo ‘tratoraço’

O partido apresentou recurso para que a matéria não seja votada, afirmando ter o mínimo necessário de um terço dos deputados presentes, mas Maia ignorou o pedido e encaminhou a votação do requerimento de urgência. Parte dos parlamentares subiu até a mesa para pressioná-lo, gritando "golpe".

— Manobra vergonhosa — disse Henrique Fontana (PT-RS).

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) acrescentou, dirigindo-se a Maia:

— Mais de um terço não quer votar essa matéria. Vossa excelência está ferindo o regimento.

E o presidente da Casa retrucou:

— Propus votar no dia 3 de maio, e o PT não quis.

Maia acrescentou que tentara um acordo com o PT para que o texto fosse votado em 3 de maio. No entanto, a oposição, segundo ele, não concordou com a sugestão e defendeu que ficasse para a semana seguinte.

— Vou falar a verdade dos fatos, propus votar no dia 3 de maio. O PT não quis votar. (…) Então, se o PT não quer votar, o PT quer esculhambar. Se a base (aliada) tiver voto (suficiente), a base ganha. Se não tiver, a base perde — afirmou Maia.

Lula critica

Líder do PT, Carlos Zarattini (SP) usou da palavra, em seguida, para confirmar que houve a tentativa de acordo, mas argumentou que o texto não tem "condição de ser votado" como foi proposto pelo relator.

— Estivemos na sua residência oficial e o objetivo era, justamente, para que não acontecesse isso — disse Zarattini, em referência ao tumulto no plenário.

E completou:

— Falamos claramente que esse projeto não tinha condição de ser votado. Era uma solução de acordo adiar a votação para a semana do dia 8 de maio, já que poderá ser discutido na comissão especial na semana que vem. E o senhor (Rodrigo Maia) disse que era muito tarde fazer isso no dia 8.

Em vídeo que circula nas redes sociais, desde o início da semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva critica as propostas de reforma trabalhista e da Previdência defendidas pelo governo Temer.

— O que eles estão fazendo não é reforma, é um processo de demolição. Estão desmontando as conquistas que tivemos desde o começo do século passado e toda a estrutura da CLT. Estão desmontando a ideia dos sindicatos serem os únicos e legítimos representantes dos trabalhadores em uma negociação. Querem acabar com a Previdência Social. No fundo, no fundo, estão desmontando os empregos dos trabalhadores — afirma.

Bomba atômica

As declarações foram dadas depois que Lula votou nas eleições do segundo turno do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Para o ex-presidente, as reformas de Temer podem ser comparadas a uma bomba atômica. 

— Se quisesse fazer comparação com algo mais grave, diria que o governo, com as suas reformas, está parecendo que está jogando uma bomba atômica em cima da cabeça de milhões e milhões de trabalhadores — ressaltou Lula.

O ex-presidente lembrou que as conquistas trabalhistas foram frutos de muita luta:

— Nenhuma conquista dos trabalhadores foi de graça. Nenhuma.

Lula também comparou as consequências das reformas trabalhista e da Previdência como uma nova forma de escravidão e apelou para a mobilização.

— Não é possível que as pessoas não tenham lido nenhum livro de história e não aprenderam que a escravidão acabou. É preciso alguém gritar contra a insanidade de destruir esse país, que é muito grande para ser destruído da forma que está sendo destruído — conclui.

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