O papa Bento XVI teve que cancelar uma visita à mais famosa universidade romana, nesta terça-feira, devido à paralisação realizada pelos estudantes italianos a fim de protestar contra os planos do pontífice, de discursar naquele campus. O Vaticano afirmou que o pontífice faria um pronunciamento na universidade La Sapienza na quinta-feira, apesar dos protestos, classificados por pessoas da Igreja e de fora dela como uma tentativa de censura.
A polêmica começou com a assinatura de uma carta por 67 professores que descreveram o papa como um teólogo retrógrado responsável por colocar a religião antes da ciência. Segundo os professores, Bento XVI não deveria ter autorização para discursar. A carta destacou um pronunciamento feito 20 anos atrás pelo cardeal Joseph Ratzinger, atualmente o papa Bento XVI, e no qual o religioso justificaria o julgamento por heresia lançado pela Igreja no século XVII contra Galileu porque o pesquisador defendia que a Terra girava em torno do Sol. Os aliados do pontífice negam isso.
- Eu acho que a visita do papa não é algo positivo porque a ciência dispensa a religião. A universidade é um lugar aberto a todas as formas de pensamento. Mas a religião não é - afirmou Andrea Sterbini, professor de ciência da computação e um dos signatários da carta.
O debate, no entanto, colocou alguns aliados inesperados ao lado do papa. Dario Fo, vencedor do Prêmio Nobel e um crítico contumaz da Igreja, defendeu o direito do papa de discursar.
- Sou contra qualquer forma de censura porque o direito à livre expressão é sagrado - afirmou o escritor ao jornal La Repubblica.
Os protestos ampliaram-se para incluir italianos (alguns dos quais integrantes do atual governo) que reclamam do peso excessivo da Igreja Católica dentro da sociedade italiana.
- Ninguém deseja calar o papa ou tentar negar-lhe o direito de expressão. Acho preocupante o quadro com que nos deparamos hoje: o único que tem espaço para falar, a qualquer hora, é o papa - afirmou Emma Bonino, ministra italiana de Assuntos da União Européia e membro do partido secular Rosa em Punho.