Ao assistir a Os sonhadores, longa-metragem de Bertolucci comentando ontem por aqui, deve se prestar uma atenção especial ao cartaz do filme. No pôster vem impresso
OS
SONHA
DORES,
grafado sem um traço indicando separação de sílaba (o ideal seria
OS
SONHA-
DORES)
Provavelmente devido uma questão de atribuição gráfica, ficou algo gozado, até melhor do que o próprio filme essa grafia que quebra a palavra em dois. Ficou instaurada a expressão Os Sonha Dores (dando a idéia de alguém que sonha com dor). Claro que não é a idéia do cineasta ou até mesmo dos distribuidores do filme no Brasil ter dado esse efeito à palavra, algo que tem muito há ver com os personagens do filme.
Pois é exatamente nessa quebra que há uma pequena revelação. O artista ou o realizador de manifestações artísticas é muitas vezes um disseminador da angústia e do sofrimento que assola a humanidade. Cineastas, pintores, poetas, escritores, entre outros, fizeram da dor algo corrente em suas obras, fazendo com que o sentimento despertasse legiões de admiradores. Veja por exemplo o olho cortado em O cão andaluz, de Luís Buñuel e Salvador Dali; ou a natureza morta ou pelo menos geometricamente distorcida dos pintores expressionistas; ou ainda, livros emblemáticos como O país do carnaval, de Jorge Amado, Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, e... Lapa, de Luís Martins.
O leitor pode ter estranhado essa última citação. Afinal, que livro é esse? Lapa é um registro "bucólico" dessa famosa região carioca cuja primeira edição data de 1936. Daí a trajetória desta obra literária foi algo tão deprimente quanto a trajetória de seus personagens. Os exemplares foram confiscados pela ditadura getulista e incinerados na febre do Estado Novo. Luís Martins foi tido como comunista e teve que passar um período no ostracismo. Daí Lapa, o livro, encontrou o caminho do esquecimento.
Eis que quase 70 anos depois do nascimento do romance, ele é relançado pela Editora José Olympio, junto com Noturno da Lapa, coletânea posterior com diversos escritos e ensaios do autor. Para o leigo, que aterrissa sem nenhuma informaçã