Mais de 40 morrem no Iêmen; cresce temor de guerra civil
Por Samia Nakhoul e Mohammed Ghobari
SANAA (Reuters) - Mais de quarenta iemenitas morreram durante confrontos violentos em ruas lotadas da capital nesta quinta-feira, e os protestos que visam encerrar o governo de três décadas do presidente Ali Abdullah Saleh ameaçam desencadear uma guerra civil.
Os moradores fugiam de Sanaa às centenas, amarrando seus pertences apressadamente ao teto de seus carros na esperança de escapar da violência que já matou mais de 80 pessoas desde segunda-feira e ameaça se espalhar por outras partes da capital.
Os conflitos desta quinta, que colocaram as forças do presidente Saleh contra membros do clã Hashed, o mais importante do país e liderado por Sadiq al-Ahmat, foram os mais violentos no Iêmen desde o início da revolta contra o governo, em janeiro.
Combatentes à paisana espalharam-se por alguns bairros e rajadas de metralhadoras eram ouvidas com alguma frequência. Explosões esporádicas também eram ouvidas na capital perto do local onde milhares de pessoas ainda estão acampadas em protesto para exigir que Saleh deixe o poder após quase 33 anos.
O Ministério da Defesa informou em comunicado que pelo menos 28 pessoas foram mortas em uma explosão na região de um depósito de armas em Sanaa de madrugada.
O procurador-geral do Iêmen ordenou a prisão de líderes "rebelados" do grupo tribal liderado pela família Al-Ahmar, e funcionários do governo disseram que o quartel-general de uma estação de TV da oposição foi "destruída", sem dar detalhes.
O líder tribal Sadiq al-Ahmar disse à Reuters que não há chance de mediação com Saleh e clamou poderes regionais e globais a forçar sua saída antes que os países da Península Arábica mergulhem em uma guerra civil.
"Ali Abdullah Saleh é mentiroso, mentiroso, mentiroso", afirmou Ahmar. "Estamos firmes. Ele irá deixar este país descalço."
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita, ambos alvos de atentados frustrados de uma ala da Al Qaeda sediada no Iêmen, têm tentado desarmar a crise e conter qualquer ameaça de anarquia que possa dar à rede militante global mais espaço para operar.
Há temores de que o Iêmen, já à beira da ruína financeira, degenere em um Estado falido que minaria a segurança regional e representaria um risco sério à vizinha Arábia Saudita, maior exportadora de petróleo do mundo.
VIOLÊNCIA NAS RUAS
Os conflitos mais recentes se concentraram em uma área no norte de Sanaa, onde combatentes leais a Ahmar vêm tentando tomar edifícios do governo.
Vidro partido, corredores ensanguentados e uma clínica improvisada para os feridos atestavam o dano na mansão de Ahmar, enquanto os moradores de Sanaa ouviam o som de explosões por toda a cidade perto da meia noite.
"Os embates estão acontecendo em torno do aeroporto de Sanaa, e acho que o aeroporto está fechado agora", disse Ahmar. Um funcionário do governo disse que o aeroporto foi fechado brevemente por conta dos combates, mas que foi reaberto.
As autoridades governamentais não detalharam de que lado vieram os mortos e feridos dos embates noturnos. Cada lado culpa o outro pela violência, que a oposição disse poder degringolar em uma guerra civil.
Na capital, havia longas filas nas padarias, nos bancos e nos postos de combustível à medida que os moradores tentavam estocar dinheiro e alimentos antes de fugir para áreas mais seguras do empobrecido país.
(Reportagem adicional de Mohamed Sudam e Khaled al-Mahdi em Sanaa e Erika Solomon, Nour Merza e Martina Fuchs em Dubai)
Reuters