A maioria dos católicos brasileiros discorda dos ensinamentos do Vaticano a respeito do aborto e de métodos anticoncepcionais, segundo uma pesquisa divulgada na terça-feira que ilustra um dilema que o sucessor do papa João Paulo 2o. provavelmente terá de enfrentar.
Com cerca de 125 milhões de pessoas que se dizem ligadas a essa religião, o Brasil é o maior país católico do mundo. Mas 86 por cento dos entrevistados acham que podem usar métodos contraceptivos e, ainda assim, serem considerados bons católicos. Para 70 %, o aborto deveria ser permitido em alguns casos, como quando há risco para a vida da mãe.
Por outro lado, só 3 % do entrevistados acreditam que o aborto deveria ser sempre permitido, segundo a pesquisa feita em fevereiro pelo Ibope junto a 1.293 católicos, por encomenda da entidade internacional Católicas pelo Direito de Decidir.
A pesquisa também mostrou que os católicos brasileiros são ligeiramente mais liberais em suas opiniões sobre aborto e contracepção do que os do México, Colômbia e Bolívia. Mesmo assim, nesses três países, a maioria dos católicos é favorável a esses dois assuntos, segundo pesquisas feitas em 2003.
A Igreja Católica condena ambas as práticas e tenta regularmente impedir campanhas na América Latina e em outros lugares para mudar as leis sobre aborto e promover o uso de preservativos contra a difusão de doenças sexualmente transmissíveis.
Essa diferença entre os ensinamentos da Igreja e as opiniões dos fiéis pode se tornar um assunto sério para o Vaticano quando chegar a hora de escolher um sucessor para o papa João Paulo 2o., cuja saúde piorou nas últimas semanas. Mais de 40 por cento dos católicos do mundo vivem na América Latina.
- É um desafio que a Igreja será forçada a enfrentar, porque mesmo entre suas fileiras há práticas que são diferentes das que a Igreja exige - disse Dulce Xavier, representante da Católicas pelo Direito de Decidir.
Mesmo assim, a maioria dos observadores do Vaticano diz que o próximo papa deve ter posições semelhantes às do atual, já que João Paulo 2o. escolheu 117 dos 120 cardeais que decidirão sua sucessão.
Recentemente, o clero brasileiro se manifestou contra uma lei, aprovada na semana passada, que autoriza as pesquisas com células-tronco embrionárias. A Igreja também é contra propostas de tornar mais liberais as leis sobre o aborto.
Atualmente, os juízes podem autorizar o aborto, caso a caso, quando há risco para a mãe ou para o feto ou quando a gravidez resulta de estupro. Há várias campanhas pelo uso de preservativos.
Um porta-voz da Comissão de Família e Vida da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contestou as conclusões da pesquisa, dizendo que outras desse tipo mostraram que a maioria dos brasileiros é contra o aborto.