Rio de Janeiro, 02 de Setembro de 2026

Maior atividade pode prevenir demência em idosos

A realização de atividades cognitivas simples, como trabalhos manuais, pode diminuir o risco de demência nos idosos. Uma pesquisa estimou que 22% dos casos de demência seriam evitados caso os idosos fossem alfabetizados, número que subiria para 29% se tivessem renda mensal maior do que um salário mínimo, e para 38% se tivessem realizado ocupações com algum grau de especialização.

Sexta, 10 de Setembro de 2010 às 09:52, por: CdB

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) traçaram um perfil da prevalência e incidência de demência entre idosos de uma região pobre de São Paulo. Os resultados mostram que a baixa escolaridade e renda estão entre os principais fatores de risco que podem levar a doença. Ao mesmo tempo, verificou-se que a realização de atividades cognitivas simples, como trabalhos manuais, pode diminuir o risco de demência nos idosos. Os estudos fazem parte de um programa de investigação sobre saúde do idoso, com ênfase na saúde mental, o São Paulo Ageing & Health Study (SPAH), coordenado pelos professores Marcia Scazufca e Paulo Rossi Menezes, da FMUSP, e envolveram idosos com 65 anos ou mais, na região Oeste da cidade de São Paulo. Por meio de questionários padronizados para estudar população com pouca escolaridade e baixa renda, 2.072 idosos passaram por avaliação cognitiva, do estado mental e de diversos fatores de risco para demência, como características sócio-demográficas e saúde. Na primeira fase do estudo foram identificados 105 casos de demência, o que equivale a uma prevalência de demência de 5,1%. – É uma prevalência alta, semelhante à registrada na Europa –, destaca a pesquisadora Marcia Scazufca. – A maior parte dos idosos entrevistados tinha menos de 75 anos, enquanto nos países europeus eles se situam em faixas etárias mais elevadas (75 anos ou mais), sendo que a idade é o principal fator de risco conhecido para a demência. A partir das informações levantadas, foi investigada a associação entre indicadores de desvantagem socioeconômica ao longo da vida e prevalência de demência. – Na literatura científica, vários estudos apontam uma relação entre menor escolaridade e maior risco de demência –, diz Marcia. Entre os idosos pesquisados, 38% não tem escolaridade (analfabetos), 52% tem um a três anos de estudo e 9% possuem quatro anos ou mais. Dois terços nasceram em zonas rurais, o que dificultou o acesso à escola. Metade teve ocupações braçais ao longo da vida. Esses fatores levaram cerca de um terço da população estudada a ter renda mensal de menos de um salário mínimo. – Entre os idosos que tiveram mais desvantagens sócioeconômicas ao longo da vida, o riso de demência foi cerca de sete vezes maior do que os idosos que não expostos a estes fatores de risco. Em uma terceira investigação, avaliou-se o possível papel da alfabetização, ocupação e renda na prevenção da demência. – A partir da fração atribuída na população estimou-se que 22% dos casos de demência seriam evitados caso todos os idosos pesquisados fossem alfabetizados, número que subiria para 29% se tivessem renda mensal maior do que um salário mínimo na época do estudo, e para 38% se tivessem realizado ocupações com algum grau de especialização –, afirma a pesquisadora. – Se nenhum idoso fosse exposto a esses três fatores de risco, cerca de 50% dos casos de demência teriam sido evitados –, acrescenta. Dois anos após a primeira avaliação os idosos foram entrevistados novamente. Os pesquisadores verificaram se a participação em 42 atividades, divididas entre atividades sociais, cotidianas, cognitivas, físicas, assistir TV e ouvir rádio, estava associada com o desempenho cognitivo e o surgimento de novos casos de demência dois anos após a primeira avaliação (incidência de demência). – Entre os 1.243 idosos reavaliados, 99% praticavam algum tipo de atividade social, 95% faziam alguma atividade cotidiana, 63% realizavam atividades cognitivas e 49% atividades físicas –, aponta a pesquisadora. – Verificou-se que os idosos que realizavam mais atividades tiveram menor declínio no funcionamento cognitivo dois anos após a inclusão deles no estudo. A maior participação em atividades também esteve associada a um menor risco de desenvolver demência neste período –, acrescenta Marcia. Quanto ao tipo específico de atividade desenvolvida, a pesquisa também mostrou que idosos que realizavam mais atividades cognitivas na inclusão do estudo tiveram menor declínio cognitivo no seguimento, o que incluia trabalhos manuais, em madeira e metal, costuras (tricô, crochê), frequentar aulas, utilizar o computador, cantar, tocar música e jogar sozinhos, ler e escrever. A pesquisadora recomenda que políticas públicas estimulem a participação dos idosos em todas as atividades, particularmente nas cognitivas. – Embora parte da população idosa brasileira não seja alfabetizada e não possa ler e escrever, há outras atividades simples que podem estimular e preservar as funções cognitivas e com isso possivelmente prevenir ou retardar o aparecimento da demência, como os trabalhos manuais –, ressalta. – Os resultados da pesquisa complementam as conclusões de outros estudos com idosos que têm acesso a atividades sofisticadas e que requerem alto poder aquisitivo, pois mostram que não apenas as atividades cognitivas sofisticadas, como ir ao teatro ou ler um romance, podem prevenir ou retardar o aparecimento da demência.

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