Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Mãe-de-santo francesa ajuda a divulgar o candomblé

Segunda, 25 de Abril de 2005 às 12:08, por: CdB

Desde que entrou em transe numa cerimônia de candomblé num subúrbio do Rio de Janeiro em 1959, a francesa Gisele Cossard nunca mais abandonou a religião.

No ano seguinte, Cossard, de olhos azuis e mulher de diplomata, iniciou-se no culto, trazido ao Brasil cinco séculos atrás por escravos africanos.

Batizada Omindarewa, ou água límpida, Cossard se tornou a primeira mãe-de-santo européia do Brasil. Ela fundou seu próprio terreiro em Santa Cruz da Serra, no subúrbio do Rio, em 1973.

Embora não sejam muito numerosos os seguidores assumidos do candomblé, a religião tem uma grande influência no Brasil. Ninguém estranhou quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou mãe Nitinha, sacerdotisa do candomblé, para ir a Roma junto com a delegação oficial do Brasil para o enterro do papa João Paulo II.

Mesmo no país que tem a maior comunidade católica do mundo, com mais de 120 milhões de fiéis declarados, muita gente acredita no candomblé e consulta mães-de-santo como Omindarewa.

- O candomblé é uma religião aberta ... O destino das pessoas é predeterminado pelos orixás - disse Cossard, hoje uma animada senhora de 81 anos, no intervalo de uma festa em homenagem a Ogum e Oxossi, os deuses da guerra e da caça.

Questionada sobre o que a atraíra na religião, ela disse:

- O candomblé é cheio de vida e entusiasmo ... Descobri que as pessoas podem ser felizes sem ter nada.

Os católicos, ao contrário, disse Cossard, são frios e carregam o peso do complexo do pecado. A mãe-de-santo fez doutorado na Sorbonne sobre o candomblé, e pretende publicar um livro neste ano sobre os rituais da religião.

No terreiro de Cossard, em quatro horas de dança, batucada e cantoria hipnotizantes, na língua africana ioruba, três mulheres que assistiam à cerimônia entraram em transe. Os 16 participantes, a maioria brancos, vestiam roupas especiais, dirigidas pela pequena mãe Omindarewa, que usava um vestido e turbante azul-claro, ornada com pulseiras e colares.

Com uma energia interminável, ela encerrou a festa dançando no pátio enfeitado para saudar todos os participantes, e depois convidou a todos para uma feijoada.

Cossard nasceu no Marrocos, e sempre gostou das coisas vindas da África. Criada em Nancy, na França, ela foi para Camarões em 1949, recém-casada, e depois passou vários anos no Chade. A vida lá era dura, e ela achou difícil romper as barreiras coloniais e raciais.

Voltar para a França continental representaria um inferno, contou ela, então a solução veio em 1959, quando seu marido foi enviado ao Rio de Janeiro como adido cultural.

- No Rio encontrei a chave para a África - disse ela.

O candomblé foi proibido no Brasil até 1946. A religião sobreviveu porque os escravos contornaram a proibição fingindo estar adorando santos católicos. São Jorge, por exemplo, representava o deus Ogum.

O candomblé também tem um deus supremo, Olorum, e liga Oxalá a Jesus e Iemanjá à Virgem Maria.

Depois de ser legalizado, o candomblé cresceu rapidamente e se espalhou de Salvador para o Rio de Janeiro e outras cidades. Mas, por ter sido associado aos escravos por tanto tempo, ainda é meio escondido.

- A classe média reluta em admitir em público que acredita no candomblé porque ainda há um certo estigma que poderia prejudicar suas carreiras - disse Mariza Soares, que ensina a história do comércio de negros na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Para ela, Omindarewa teve uma influência considerável no candomblé e ampliou seu alcance. A religião é atraente por ser pragmática, dizendo respeito aos problemas do dia-a-dia das pessoas.
Mas, na última década, o candomblé vem enfrentando uma competição agressiva das igrejas evangélicas.

- É mais fácil virar evangélico, que também satisfaz as necessidades diárias das pessoas - disse Veronica Melander, pesquisadora sueca do Instituto Superior para Estudos

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