Rio de Janeiro, 05 de Novembro de 2026

Madrugada de guerra na Rocinha deixa 10 mortos

Terça, 01 de Abril de 2008 às 06:29, por: CdB

Um homem morreu e pelo menos seis ficaram feridos em tiroteio na Favela da Rocinha, em São Conrado, no fim da noite desta segunda-feira. Um homem que faria parte de uma quadrilha abandonou um carro roubado com um dos feridos na entrada da emergência do Hospital Miguel Couto. Moradores denunciam que o número de mortos pode chegar a dez, número não foi confirmado pela polícia.
 
Na noite desta segunda-feira, por volta das 23 horas, um Honda Civic foi estacionado em frente ao portão da emergência do hospital e seus faróis altos chamaram a atenção de funcionários e do policial de plantão, que tentou identificar o motorista, que fugiu antes de ser abordado. Enquanto o homem baleado era socorrido, outros chegavam ao hospital, levados por parentes em vans, táxis e motocicletas. Um deles, identificado pela 15ª DP (Gávea) como Luiz Henrique Silva, de 43 anos, chegou com familiares numa Kombi. Com um tiro de fuzil no peito, ele morreu antes de ser atendido. Policiais suspeitam de que era traficante, mas parentes afirmaram que Luiz Henrique era trabalhador e chegava a casa quando foi atingido por bala perdida.
 
Ao serem informados sobre o tiroteio, policiais do Batalhão do Leblon foram para a Rocinha, mas não passaram dos acessos, onde ficaram de prontidão. De acordo com testemunhas, grupo de bandidos liderado por Inácio Castro Silva, o Canelão, gerente da venda de drogas na parte alta do morro, teriam se rebelado e tentado tomar as bocas-de-fumo controladas desde outubro por Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, da facção Amigos dos Amigos (ADA). A intenção de Canelão seria aplicar um "golpe de estado" na favela, dominando os "soldados" de Nem e abrindo caminho para a invasão de traficantes rivais do Comando Vermelho (CV), com quem Canelão teria se aliado.
 
– Isso é uma possibilidade, mas vamos aguardar o que a Polícia Civil vai apurar para passarmos mais informações, disse o comandante do 23º BPM, coronel Carlos Eduardo Millan, que esteve no Miguel Couto de madrugada, para acompanhar a coleta de informações por policiais do Serviço de Inteligência (P-2) do Batalhão.
 
–Reforçamos o policiamento aqui no hospital e na favela para evitar invasões e fuga de marginais, completou Millan.
 
Dos seis feridos, um foi localizado pela polícia no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. A polícia investiga se eles fariam parte do bando de Canelão, rechaçado pelos homens de confiança do traficante Nem. Todos teriam negado envolvimento com os criminosos da Rocinha. Apresentando-se como moradores, disseram que foram vítimas de balas perdidas no local do tiroteio, a Rua 1, na parte alta da favela.
 
Agentes da Delegacia da Gávea estiveram nas emergências dos dois hospitais, fotografaram os pacientes, colheram informações deles e de parentes, mas disseram que não divulgariam as identidades porque nenhum apresentou documento para confirmar os nomes. O de Canelão não estaria entre os que foram passados aos policiais, mas Juca e Chico, dois gerentes ligados a ele, estariam entre os feridos. 

– Nesta terça vamos ouvir melhor essas pessoas para tentar saber exatamente o que houve, disse um policial civil, acrescentando que o Honda Civic deixado na porta do Miguel Couto foi roubado na quinta-feira passada na área da 10ª DP (Botafogo).
 
Após o conflito, o clima era de medo na Rocinha. Comentários davam conta de que o grupo chefiado por Nem teria assassinado pelo menos dez homens que tentaram se rebelar contra ele. Mototaxistas e motoristas de lotadas evitaram subir o morro durante a madrugada, pois moradores diziam que traficantes armados ainda estavam circulando na Rua 1 horas após o tiroteio.
 
– Está brabo lá em cima. É melhor esperar acalmar, comentou o motorista de uma Kombi a uma passageira.

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