Rio de Janeiro, 14 de Maio de 2026

Machado neles: a solução da crise

Por Flávio Aguiar - Não virei um sanguinário adepto da pena de morte para solucionar a crise política do PT, do governo, do Congresso e da nação. Só aconteceu que eu tive uma súbita iluminação. E ela ocorreu numa aula inaugural sobre Machado de Assis. (Leia Mais)

Segunda, 08 de Agosto de 2005 às 08:26, por: CdB

Não virei um sanguinário adepto da pena de morte para solucionar a crise política do PT, do governo, do Congresso e da nação. Só aconteceu que eu tive uma súbita iluminação. E ela ocorreu numa aula inaugural sobre Machado de Assis.

Calma, leitora ou leitor: não virei um sanguinário adepto da pena de morte para solucionar a crise política do PT, do governo, do Congresso e da nação. Só aconteceu que eu tive uma súbita iluminação: entendi a natureza da crise! De repente, não mais que de repente, as peças do quebra-cabeça se juntaram na minha frente, e num flash fulminante, a crise se desenhou esclarecida, para mim, impudica, no esplendor de sua nudez ao mesmo tempo fascinante e aterradora.

Ocorre que eu estava dando a aula inaugural de meu curso nas Letras, para este semestre. E a aula era sobre Machado de Assis. Assim, vi-me diante do paradoxo, e fui obrigado a mencioná-lo para alunas e alunos, de ter um estalo digno de Vieira numa fala sobre Machado. Mas vamos ao caso, antes que me perca, como gosto e prefiro, em elucubrações sobre os séculos XIX e XVII.

Em primeiro lugar, desenhemos o enigma. Estou falando da crise política, não dos fatos penais. Portanto, o mistério que se desenha não é o de saber se Dirceu sabia ou não sabia o que suas Marílias e Marílios estavam fazendo com o erário público. Ou qual o tamanho da verdade de Roberto Jefferson, ou a natureza de seus "instintos primitivos" em relação a José Dirceu. Ou ainda qual o tamanho da metástase petista quanto aos saques nas contas administradas por Valério. Ou até onde irá a broca ou a talhadeira se investigar o envolvimento do PSDB com as mesmas contas. Nem mesmo se Lula sabia ou não sabia dos tubarões que nadavam na sua vizinhança. Muito menos discutir, como já se fez na CPMI dos Correios, se chimarrão é melhor do que água de coco, ou vice-versa, logo eu que aprecio um e outra.

Não, o meu tema não é este. Os temas, que são passíveis de serem examinados perante o Código Civil ou o Penal, são da competência de quem deve velar por eles, a PF, o Ministério da Justiça, o Público, a CPIs, etc. O meu tema é o de que há um espetáculo político em curso, com tomadas de depoimentos, discursos e contra-discursos ameaçadores, acareações, enfrentamentos, e esse espetáculo é que é a ponta do iceberg da crise. Afinal, o que está acontecendo ali, na arena política, o que significam todos aqueles gestos, os depoimentos que não depõem, os esclarecimentos que não esclarecem, as perguntas que não perguntam, as respostas que não respondem, deixando tudo por conta das ilações e conclusões a que se possa chegar.

Porque me parece que no espetáculo todo, à parte o relator Osmar Serraglio, muito pouca gente me parece de fato interessada em investigar. As pessoas que comparecem, na maioria, estão mais interessadas em acusar, em condenar, em criminalizar ou inocentar rapidamente A, B, ou C, em se safar, em se vingar, etc . Porque a investigação, se feita, chegará às raízes e à natureza do crime, que é o da despudorada privatização da coisa e do espaço públicos, que caracteriza, ainda e sempre, a vida política brasileira. E isso, ali, não interessa, de fato, a quase ninguém, nem aos acusadores de hoje, que podem ser réus ao se investigar o passado governo, nem aos réus de hoje, a ala petista que enxovalhou a memória do partido, e que já estiveram entre os acusadores de ontem.

E lá dava eu minha aula sobre Machado de Assis. Falava da tese que sustento, de que boa parte do encanto fascinante e aterrador que certos romances e contos guardam, vem do seu peculiar estilo confessional, como em Memórias póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro. Nesta confissão não há sentido devoto, de contrição para se conseguir o perdão. Nem Brás Cubas, o autor defunto ou defunto autor do primeiro romance, nem Bentinho, o autor do segundo, se arrependem do que tenham feito. Nem admitem que tenham cometido qualquer falta.

O que se passa ali é uma confissão inter pare

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