Rio de Janeiro, 02 de Abril de 2026

Lula x Heloísa Helena no 2° turno: já pensou?

Por Flávio Aguiar - Há poucas semanas Heloísa Helena era saudada por tucanos e pefelês como o novo fator que poderia garantir o segundo turno. Agora eles e seus aliados na imprensa terão de se preocupar com a possibilidade da senadora ofuscar a cena do candidato deles. (Leia Mais)

Terça, 08 de Agosto de 2006 às 10:44, por: CdB

O tucanato e seus amigos pefelês tem uma nova pontinha de pesadelo a despertar nas horas crepusculares de suas noites mal dormidas. É que na última pesquisa Ibope apareceu a suspeita de que Heloísa Helena esteja agora tirando votos... de Geraldo Alckmin.

A suspeita não é descabida. O crescimento das intenções de votos na senadora (que chegou, nesta pesquisa, aos 11%, ultrapassando a barreira simbólica dos 10%) tornou-a mais atraente a quem queria lavrar um voto contra Lula, mas ficou infeliz com a candidatura de Alckmin, ao invés da de Serra.

Alckmin até o momento não conseguiu vencer o patamar de ser o candidato da direita brasileira. Esta, em nosso espectro eleitoral, conta tradicionalmente com um percentual de votos que vai de 25 a 30%, conforme a região. O candidato tucano está ancorado neste porto, o que o torna o mais provável adversário de Lula na possibilidade, ainda distante, mas não impossível, de um segundo turno. Mas seu barco não se solta desta amarra: sua força é também sua fragilidade.

O problema de uma candidatura que parta de uma posição de direita, por mais que o discurso o adoce, é que ela enfrenta o amargor de que tudo - absolutamente tudo - o que direita defendeu nas duas últimas décadas só contribuiu para arruinar a América Latina e fragilizar o Brasil.

Ou seja: não se pode dizer que o eleitorado brasileiro está dando uma guinada total à esquerda, mas seguramente uma larga parcela dele não quer saber das políticas de direita que foram implantadas com tanto ruído no passado recente, e aplaude as políticas sociais do atual governo. O argumento de que uma parte delas foi implantada no governo passado soçobra ante o fato de que este recusou-se sistematicamente a valorizar o social como marca de governo.

A subida de Heloísa Helena tem como contrapartida o completo desaparecimento, nos últimos tempos, de Fernando Henrique da cena política. Alguém deve ter convencido o ex-presidente, sempre chegado numa aparição, de que sua presença pode ser a pá de cal nas pretensões de Alckmin a chegar um pouco mais adiantado nas pesquisas, quando começar o horário eleitoral.

Há poucas semanas Heloísa Helena era saudada por tucanos e pefelês como o novo fator que poderia garantir o segundo turno. Agora eles e seus aliados na imprensa terão de se preocupar com a possibilidade da senadora - cujo crescimento, de fato, tem afetado pouco ou nada as intenções de voto em Lula - ofuscar a cena do candidato deles. Se Heloísa Helena se conscientizasse de que isto abre a possibilidade de se levar o debate eleitoral mais para a esquerda, discutindo projetos e políticas sociais, a eleição ganharia em qualidade. Se ela chegasse a ultrapassar Alckmin, aí todos os matizes de esquerda teriam o que comemorar. Parodiando Millor: livre sonhar é só sonhar.

Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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