O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa nesta quarta-feira o ambiente de turbulência política de Brasília para viajar à Escócia, onde participará como convidado da reunião de cúpula do G8.
Além dele, líderes de México, África do Sul, Índia e China também participam do encontro que reúne os líderes dos sete países mais industrializados do mundo, mais a Rússia.
Na opinião do economista Gilberto Dupas, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), a presença do Brasil no encontro do G8 pode representar para o presidente Lula uma oportunidade de "remendar rachaduras" causadas na imagem internacional do governo brasileiro pela crise política no país.
- Dependendo de seu desempenho, Lula pode tentar reverter um pouquinho esse processo de desgaste - afirma Dupas, que coordena o Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP.
De acordo com o economista, as denúncias de corrupção que têm abalado o governo fizeram com que surgissem, pela primeira vez em quase três anos de governo, dúvidas sobre a imagem de Lula como um símbolo positivo da democracia brasileira.
Para o presidente do IEEI, com a viagem à Escócia, Lula se distancia um pouco dos problemas internos com os quais esteve intensamente envolvido nos últimos dias, mas não se afasta do desafio de revigorar o seu governo.
- Se viajar deixando para trás um campo muito grande de questões não resolvidas, ele tenderá a sinalizar como alguém que não conseguiu retomar o pique do governo e, portanto, reassumir a condição de gestor da governabilidade - analisa Dupas.
Novo paradigma
Antes do encontro com o G8, os líderes dos cinco países convidados se reunirão para concluir a elaboração de uma declaração conjunta sobre as posições comuns do bloco de nações em desenvolvimento a respeito dos dois principais temas da cúpula na Escócia: as mudanças climáticas e o cenário econômico mundial.
O documento defenderá a necessidade de "um novo paradigma para a cooperação internacional, que leve em consideração as perspectivas e necessidades dos países em desenvolvimento e assegure que tecnologias economicamente viáveis sejam colocadas à disposição dos países em desenvolvimento".
A agenda de Lula inclui ainda encontro com o primeiro-ministro inglês Tony Blair, que ocupa a presidência rotativa do G8 desde janeiro deste ano. Segundo um comunicado do Itamaraty, Brasil e os outros quatro países convidados defenderão a importância do multilateralismo e da repartição eqüitativa dos benefícios da globalização, reafirmarão o papel da cooperação Sul-Sul e a relevância de iniciativas como a Ação Contra a Fome e a Pobreza, convocada pelo presidente Lula.
A declaração dos cinco convidados do G8 também deve ressaltar a importância da entrada em vigor do protocolo de Kyoto e defender o "princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas dos Estados".
O texto deve ainda reafirmar a "responsabilidade histórica dos países desenvolvidos" de amenizar as mudanças climáticas e modificar os seus padrões de consumo de energia, que também afetam o clima.
Subsídios
O Protocolo de Kyoto estabelece metas para a redução da emissão de gases poluentes ligados ao aquecimento global, mas apenas 30 países industrializados estão sujeitos a essas metas.
O documento dos países convidados também reforça a importância do apoio a iniciativas com impacto positivo na mudança do clima, como o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
O MDL é um anexo do Protocolo de Kyoto que permite aos países industrializados comprar a redução de emissões de gases poluentes em nações em desenvolvimento para diminuir suas metas de corte.
Na área econômica, a declaração dos cinco países deve reafirmar a necessidade de desmantelamento do sistema de subsídios agrícolas e defender a destinação de recursos adicionais para o combate à fome e à pobreza.