O depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPMI dos Correios, nesta quinta-feira, causou o maior estrago já visto, até agora, na base aliada do governo. Ele admitiu que, além de receber pagamentos em dinheiro do empresário Marcos Valério, provavelmente de um caixa dois de campanha, parte destes pagamentos aconteceu em depósitos nas Bahamas, um dos mais conhecidos paraísos fiscais do mundo, situado no Caribe. Segundo Mendonça, a abertura das contas no exterior teria sido uma sugestão de Valério à Zilmar Fernandes, sócia de Duda, embora este tenha negado tal sugestão por meio de uma nota divulgada no início da tarde e, posteriormente, em um novo depoimento à CPMI do Mensalão.
Depois de um ataque surpresa, no Senado, onde o salário mínimo de R$ 384 foi aprovado por uma diferença de apenas três votos, Lula convocou uma reunião ministerial para a manhã desta sexta-feira e planeja um pronunciamento à nação, às 9h, em cadeia nacional de rádio e TV, quando promete falar sobre a crise que, após o depoimento de Duda Mendonça, assume um caráter mais grave, conforme acentuaram os 18 parlamentares petistas que assumiram as tribunas da Câmara e do Senado ao longo do dia. Vários discursaram sob forte emoção, às lágrimas.
Após a decisão de Mendonça, de comparecer expontaneamente à CPMI após ser ouvido na Polícia Federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou definitivamente na área de tiro, pela primeira vez desde que foi deflagrado o escândalo de corrupção na Empresa Brasileira de Correios (ECT). Em maio, quando empresários corromperam por R$ 3 mil o funcionário público Luiz Marinho - chamado de "petequeiro" por Roberto Jefferson, deputado petebista acusado de receber propina de Marcos Valério - o presidente afirmou que os culpados deveriam pagar "doa a quem doer". Na tarde desta quinta-feira, embora tenha dito que este não era o seu objetivo, o deputado Álvaro Dias (PSDB-PR) falou abertamente na abertura de um processo de impeachment do presidente.
- Este é o momento de maior melancolia que jamais vivi. Estamos no limiar de uma crise política sem precedentes. É inevitável, a partir de hoje, discutirmos a palavra impeachment - disse.
"Livrou a cara"
Após o depoimento de Mendonça, às 10h40m, o comentário entre os parlamentares que chegou quase à unanimidade foi o de que o publicitário responsável pela campanha presidencial do PT "livrou a cara e colocou Lula e o PT na reta". A total surpresa das declarações de Medonça levaram a senadora Ideli Salvati a balbuciar, a certa altura, "não sei o que dizer, não sei o que pensar". De acordo com Duda, o empresário Marcos Valério era o responsável, por determinação do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pelo pagamento da dívida que o PT tinha com sua agência. Duda e sua sócia Zilmar Fernandes estão depondo neste momento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios.
Zilmar contou que em março de 2003, Valério disse a ela que estava difícil fazer o pagamento da dívida e pediu um número de conta no exterior para fazer os pagamentos. Duda disse que procurou o Bank Boston e que foi aberta uma empresa nas Bahamas, com o nome de Dusseldorf.
De acordo com o publicitário, foi depositado no exterior pouco mais de R$ 10 milhões e o valor foi repassado aos poucos. Chegavam pelo Banco Rural Europa, Florida Bank, Banco de Israel e Trade Link. Duda disse que após denúncias que a contabilidade de sua empresa reuniu alguns faxes comprovando a transferência de dinheiro para a conta nas Bahamas e entregou esses papéis a comissão. "Posso ter cometido um erro fiscal, mas não cometi um erro de caráter", afirmou o publicitário.
Protesto em plenário
Parlamentares do bloco da esquerda do PT no Congresso Nacional fizeram nesta quinta-feira, no plenário da Câmara dos Deputados, um ato de repúdio ao que classificam como um "criminoso esquema de financiamento de campanha". O ato foi motivado pelas declarações do publicitário Duda M