O presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu, em entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil, na madrugada desta quinta-feira, que não pretende concorrer a um terceiro mandato em 2010.
– Eu tenho na minha biografia gestos que me fazem não ficar embevecido por um mandado – disse Lula.
Perguntado sobre o que não conseguiu ainda fazer nos seus mais de cinco anos na Presidência, Lula preferiu destacar o que conseguiu fazer na educação, uma de suas prioridades.
– Educação foi uma das minhas prioridades, e quando eu terminar o governo, eu que não tenho diploma universitário, vou passar para a história como o presidente que mais fez escolas técnicas em oito anos do que fizeram em 100 anos neste país – afirmou.
Confira os principais trechos da entrevista do presidente Lula ao jornalista Luiz Carlos Azedo, apresentador do programa 3 a 1, à diretora de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Helena Chagas, e ao jornalista convidado Cristiano Romero, do jornal Valor Econômico.
– O senhor tinha um time aqui na Esplanada dos Ministérios que foi desfalcado de dois jogadores de primeira linha, o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Depois de tudo o que aconteceu com os dois, qual é a opinião e avaliação que o senhor faz dos seus antigos companheiros do PT?
– Antigos não, companheiros. O fato de eles não estarem no governo não mexe na minha relação de amizade. Aliás é uma coisa que prezo, que eu carrego para o fim da vida, porque ninguém me obrigou a ter amizade, amizade é uma coisa que a gente escolhe. A saída dos dois apenas mostrou para a sociedade que ninguém é imprescindível. Que ninguém é insubstituível. De vez em quando, não só agora que eu sou presidente, mas quando eu não era presidente, via nos jornais assim: Porque tal pessoa é imprescindível. Não existe isso, nós substituímos os dois porque era necessário substituir. As pessoas que estão no lugar deles estão dando uma demonstração extraordinária e os dois companheiros estão reconstruindo suas vidas. É assim que tem que ser a vida, não tem outro jeito.
– Depois de praticamente cinco anos e meio que o senhor está exercendo a Presidência, o que o senhor acha que deixou de fazer, que não conseguiu de fazer e que acha que ainda dá para fazer nesse segundo mandado?
– Se você for procurar alguma coisa que falta fazer, sempre vai faltar. O importante é que para governar, você tem que definir prioridades. Não tem dez prioridades, ou você escolhe duas ou três e executa, ou você passa pelo governo e faz um monte de coisas que ninguém percebe. O que nós fizemos: educação. Educação foi uma das minhas prioridades, e quando eu terminar o governo, eu que não tenho diploma universitário, vou passar para a história como o presidente que mais fez escolas técnicas em oito anos do que fizeram em cem anos neste país. Desde a primeira de 1909 até 2003 foram 140 escolas técnicas profissionalizantes. Eu vou fazer em oito anos, 214 escolas técnicas profissionais. Estamos fazendo dez universidades federais novas. Tem quatro no Congresso para ser aprovadas e passa a ser 14. E estamos fazendo 95 extensões universitárias. Criamos o Prouni, que já colocou 435 mil jovens na universidade e o com o vestibular deste ano serão mais 100 mil. Vamos para 500 e poucos mil jovens pobres, da periferia, nas universidades. Fizemos o Reuni, que vai colocar mais de 400 mil jovens na universidade até 2010 e só para vocês terem idéia, em 2003, a universidade brasileira renovava cerca de apenas 113 mil vagas e este ano vai renovar 227 mil vagas das escolas públicas federais.
– O senhor descarta categoricamente a tese do terceiro mandato?
– Deixa só eu terminar essa coisa do esquecimento, do que falta fazer. Nós tivemos que dar prioridade. A outra prioridade minha era fazer a economia crescer. Alguns falam sorte, sorte não. A indústria naval brasileira está acontecendo por decisão do governo. A Petrobras deixou de investir US$ 250 milhões por ano em pesquisa, para investir US$ 250 milhões por mês, por decisão do governo. Então o que é consignado hoje de empréstimo ao maior número de pessoas físicas no país é por decisão do governo. As coisas não acontecem por acaso. Obviamente eu quero ter sempre sorte e por isso o Brasil está dando certo. Certamente quando eu terminar o mandato eu vou lembrar de muitas coisas que não fiz, mas também vou lembrar de muitas coisas que nós conseguimos executar. Porque tem uma equipe boa que trabalha, todo mundo aprendeu. O PAC [Plano de Aceleração do Crescimento] era para a gente ter lançado antes das eleições de 2006 e nós decidimos que íamos lançar no início do ano. Qual era minha preocupação? O que nós iríamos fazer no segundo mandado? Era me perder na mesmice do primeiro. Então falei, temos que fazer uma novidade. A novidade é o PAC, que está dando trabalho para todos nós até 2010. Nunca antes na história deste país teve tanto dinheiro federal em todas as prefeituras deste país. Pode procurar uma prefeitura, pode procurar o ([prefeito Gilberto) Kassab em São Paulo. Do PSDB, em qualquer outro Estado, nunca na vida eles receberam a quantidade de dinheiro que nós estamos mandando para esses municípios.
– Nunca teve terceiro mandado também.
– Eu penso que democracia é uma coisa tão séria que a gente não pode brincar com ela. Daqui a pouco alguém quer o terceiro mandato, o quarto mandato, o quinto mandato. Está de bom tamanho. Eu era a favorável a um mandato só. Eu acho que quatro anos é muito pouco para executar um programa. Com mandato de quatro anos se você começar a fazer um projeto para construir uma hidrelétrica, você termina o mandado e não consegue a licença prévia do Ibama ainda. Ou talvez o Ministério Público proibiu. É preciso ter um tempo para executar um programa. E eu já tive meu tempo. Com a graça de Deus, sou agradecido todo dia por estar dando certo as coisas. Que venha outro e que faça mais. A única coisa que vou dizer é o seguinte. Quando eu terminar o meu mandato, tudo o que nós tivermos feito, eu vou registrar em cartório. Quem entrar no meu lugar vai receber tudo o que foi feito no meu governo, tudo que está contratado, quantos metros de obra estão feitos. Vou deixa lá sabe por quê? Porque eles vão dizer assim: 'Se aquele torneiro mecânico que não foi nem à universidade fez tudo isso, eu tenho que fazer mais'. Porque aí ele vai ser obrigado a fazer mais do que eu. Essa é uma coisa boa, uma coisa extraordinária, e eu aprendi isso trabalhando em linha de produção. A gente vê um companheiro fazendo uma coisa e a gente quer fazer mais do que ele.
– O senhor registraria em cartório também a decisão de não concorrer ao terceiro mandado consecutivo?
– Não preciso registrar em cartório, mas se fosse o caso, eu registrava. Eu vou dizer um exemplo para você: quando eu podia ser candidato o tempo que eu quisesse no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP), quando eu fui reeleito em 1978, eu convoquei uma assembléia e decidimos que o presidente do sindicato não poderia ser eleito mais que duas vezes. Portanto, meu caro, eu tenho na minha biografia gestos que me fazem não ficar embevecido por um mandado. Porque os mesmos que ficam brigando que querem terceiro mandado quando você está bem nas pesquisas são os mesmos que não vão querer quando você estiver mal nas pesquisas. Então, eu aprendi a andar com os pés muito assentados no chão. Eu tenho um remédio contra a mosca azul a minha vida inteira, e portanto eu sou tranqüilo. Eu termino meu mandado no dia 31 de dezembro de 2010 e no dia 1º, estarei passando a faixa para quem estiver na presidência.
Crise no mercado financeiro
O Brasil está preparado e não deve sofrer muito com a crise no mercado financeiro dos Estados Unidos. Foi o que afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na entrevista à TV Brasil, no programa 3 a 1. Lula também afirmou que o governo está trabalhando para que o Brasil continue crescendo, mas sem descuidar do controle da inflação.
– Presidente, a situação mundial é de crise, principalmente por causa da situação do mercado financeiro nos Estados Unidos. O Brasil está preparado para enfrentar essa situação sem recessão, sem quebradeira dos bancos? Que providências o governo está tomando?
– O governo está preparado e o Brasil está preparado. Obviamente que nós sempre levamos em conta que, tendo recessão nos EUA, vai ter um abalo em todos os países, afinal de contas é a maior economia do mundo. Mas o Brasil nunca esteve tão preparado como está hoje. O Brasil diversificou a sua balança comercial. Nós, que tínhamos uma dependência de quase 30% da balança comercial com os Estados Unidos, hoje temos apenas 15%, embora ela tenha crescido mais de 15% ao ano. Nós diversificamos para a América Latina, para a América do Sul, para a África, para o Oriente Médio, para a Ásia. O Brasil hoje é menos dependente da relação comercial com os Estados Unidos, se bem que ainda é um parceiro muito importante.
– O governo tomará medidas para reduzir um possível impacto, como por exemplo, havendo restrição de crédito externo, providenciar mais crédito interno?
Lula: Nós não vamos tomar nenhuma medida precipitada. Nós estamos acompanhando isso com lupa. O (presidente do Banco Central, Henrique) Meirelles está viajando para Nova York, tenho conversado com o ministro (da Fazenda) Guido Mantega todo dia. Na medida em que for necessário, nós vamos tomar medidas. Obviamente que, se rarear o crédito internacional e os empresários brasileiros tiverem dificuldade para tomar dinheiro emprestado, nós vamos ter que tomar uma decisão de arrumar mais dinheiro para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) possa emprestar. O dado concreto é que nós temos muitos investimentos já contratados, com financiamento garantido e certamente isso não irá sofrer nenhuma consequência. Eu queria ressaltar que o Brasil está numa situação privilegiada com relação à crise americana. Não é que a gente não deva ter cuidado. Mas até agora as coisas estão andando bem, os bancos brasileiros não estão metidos no subprime (categoria de hipoteca que gerou a crise no mercado imobiliário), portanto é uma tranquilidade para o Brasil. Mas se sabe que todo cuidado é pouco.
– A economia brasileira está crescendo basicamente puxada pela taxa de investimentos. É até um dado positivo, os investimentos das empresas em máquinas e equipamentos estão crescendo numa velocidade duas vezes e meia maior que a do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, o primeiro efeito dessa crise sobre o Brasil já é visível, que é justamente a escassez de crédito. As empresas brasileiras não vão ter tanto acesso a recursos no exterior como vinham tendo. O BNDES por sua vez está emprestando, tem esse ano uma carteira de R$ 84 bilhões aprovada para emprestar, mas faltam recursos. O senhor considera por exemplo aumentar o capital do BNDES para que ele possa continuar emprestando no mesmo ritmo?
– Nós já tomamos a decisão de emprestar mais R$ 15 bilhões para o BNDES e também de pegar o fundo que nós criamos de desenvolvimento com o dinheiro do Fundo de Garantia [por Tempo de Serviço, FGTS] para repassar uma parte para o BNDES fazer os investimentos. Nós estamos cuidando de garantir que as coisas aconteçam e sabemos que empresas grandes como a Petrobras, a Vale do Rio Doce precisam de financiamento externo, mas na hora em que ele rarear nós vamos ter inclusive que mudar as normas do BNDES, que não pode emprestar uma determinada quantidade de dinheiro só para uma empresa, para que ele possa aumentar o volume de dinheiro emprestado. Uma coisa que é importante o povo brasileiro ter clareza é que nós não queremos em hipótese alguma brecar o crescimento da economia. Nós estamos com um mercado interno sólido, ele dá substância à nossa economia e nós queremos que continue fortalecido. Por isso eu acho que o Brasil vai passar por essa sem sofrer as consequências que sofreria em outros momentos, quando nós estávamos mais débeis. Dessa vez, sem passar nenhum otimismo exagerado, eu acho que o Brasil está seguro, até porque temos um colchão de US$ 205 bilhões de reserva. E não queremos mexer na nossa reserva por conta disso. O que nós queremos é continuar fazendo a economia crescer, que o povo continue consumindo, continue comprando, porque aí nós vamos dar solidez à nossa economia.
– A economia está crescendo a uma taxa de 6% ao ano neste momento. Mas dado esse ciclo de aperto monetário que o Banco Central iniciou em abril, o mercado já espera uma redução do crescimento no ano que vem para algo entre 3% e 4%. Como o senhor está olhando essa possibilidade?
– Eu penso que o mercado vai ser surpreendido. Todo mundo sabe que as medidas tomadas pelo Banco Central e as medidas também tomadas pelo Ministério da Fazenda tinham como objetivo reduzir um pouco a demanda, porque ela estava muito aquecida. E nós começamos a ficar preocupados porque na hora em que aumenta a demanda e você não tem a oferta, você pratica uma coisa que eu não quero, que é a inflação. Como nós temos muitos investimentos contratados, alguns em andamento, a nossa expectativa é que num curto prazo essas empresas que estão aumentando a sua capacidade de produção, e que hoje significam aumento de demanda, daqui a um ano estarão colocando o produto na rua, vão passar a ser oferta, e isso pode equilibrar a nossa economia, para que a gente não tenha nenhuma preocupação. Os preços internacionais dos alimentos estão caindo, a inflação já está reduzindo, estamos a uma taxa de 6,3%. O Brasil é o único país do mundo que está dentro da meta ainda, nós vamos perseguir essa meta e vamos manter, porque eu sei o que significa a inflação controlada nesse país.
– Então a prioridade é controlar a inflação, não é o crescimento? O crescimento vai ser condicionado ao controle da inflação? Essa é a orientação?
– As duas coisas são prioridade. E nós estamos provando que é possível a economia crescer, é possível distribuir renda e é possível controlar a inflação. Estamos provando que é possível exportar, ao mesmo tempo importar, crescendo o mercado interno. Esse é o sucesso da política econômica, é que você não precisa travar. Se você está tomando dois comprimidos, você pode tomar apenas um e meio. Aí nós vamos permitir que haja um ciclo duradouro de crescimento. É com essa hipótese que eu trabalho: o Brasil crescer 10 ou 15 anos a taxas entre 4% e 6%, um crescimento extraordinário. Isso significa aumento da massa salarial, aumento de emprego. De janeiro a agosto nós criamos 1,8 milhão de empregos. Vamos chegar em dezembro com mais de 2 milhões de empregos. Se vocês pegarem a retrospectiva, vão perceber que há muitas décadas o Brasil não tinha uma situação privilegiada como essa que nós estamos vivendo agora.
União homossexual
Contra o aborto, mas a favor de que o Estado possa cuidar de quem queira fazê-lo. A favor da união civil entre homossexuais e das limitações ao fumo em lugares fechados e ao consumo de bebidas alcoólicas por motoristas. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se mostrou em entrevista exclusiva ao programa 3 a 1, da TV Brasil.
– Por que os políticos que são contra (a união homoafetiva) não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam? – questionou Lula. Para o presidente, a sociedade e o Estado brasileiros têm que parar de agir com hipocrisia.
– Temos agora uma pergunta de São Paulo: "Gostaria de saber se o Lula é favor do casamento homossexual".
– Eu a vida inteira defendi o direito à união civil. Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável. Eu acho que nós temos que parar com esse preconceito. Cada ser humano viva sua vida do jeito que bem entender, desde que não moleste a vida dos outros.
– Já que o senhor concorda com a união civil, o senhor pensa no caso de o governo adotar alguma medida para facilitar a vida das pessoas, dos homossexuais que vivem em família? Por exemplo, permitir a concessão de pensão previdenciária e outros benefícios? Adoção de filhos?
– Várias câmaras de vereadores já aprovaram, várias câmaras legislativas já aprovaram e têm vários projetos no Congresso Nacional. Eu participei da Conferência Nacional (dos Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), e uma coisa que me cala profundamente é por que os políticos que são contra não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam? Olha, nós temos que tratar sem nenhuma discriminação a vida que cada um leva dentro de casa, o parceiro que quer ter a mulher ou homem é problema deles. O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a Nação. O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil.
– Outro tema polêmico é a questão do aborto. Milhares de jovens e adolescentes morrem porque fazem aborto clandestinamente e existe uma polêmica com relação a legalização. Qual a sua opinião sobre o essa questão?
– Essa é uma posição histórica. Eu trago esse posição desde 1982, eu falo de 26 anos que tenho uma posição, que é tratar de aborto como questão e de saúde pública. Morre muita gente fazendo aborto clandestino, porque é proibido o Estado cuidar. Você encontra menina de 14, 13 e 20 anos, tentando furar o útero com agulha de tricô, tomando chá de caroço de abacate, tentando colocar fuligem, todas essas coisas feitas de forma inadequada por falta da legislação permitir uma orientação adequada, você vê as pessoas morrerem. Se você perguntar para mim, presidente Lula, o senhor é contra o aborto? Eu sou contra o aborto. Minha mulher é contra o aborto, até porque eu acho que nunca uma mulher que faz aborto, faz porque quer ou por prazer, ela faz porque é constrangida por uma situação e é nessa hora que o Estado tem que dar atendimento a essas pessoas. No Brasil, essas coisas vão evoluindo, na medida em que você vai tendo mais educação, na medida em que vai dando mais informação, em que a escola pública começa a dar orientação sexual para os nossos jovens e nossa meninas, tudo isso vai diminuir bastante, porque as pessoas saberão que têm mais opções.
– O senhor não acha que se fosse problema relativo aos homens já não teria sido resolvido? Na sua opinião o senhor não acha que a sociedade é bem machista?
– Nesse caso não é questão de machismo ou não é preconceito histórico, tabus religiosos que nós precisamos superar. Tem meninas contaminadas com Aids, meninas que ficam gravidas precocemente, sem querer ficar gravidas, talvez porque o pai ou a mãe não educou corretamente. Porque não recebeu orientação. Então essa menina não pode ser castigada por um erro. Como é que pode uma menina de 13 anos ter um filho? Quem é que vai sustentar essa criança? Se tiver um pai de classe média para sustentar, ótimo. Ou você vai ter mais uma criança de rua. Então, eu penso que nós deveríamos pensar mais seriamente nisso, por isso começamos a discutir a questão do planejamento familiar. Orientar melhor as pessoas, porque com base na orientação as pessoas vão fazer sexo por prazer e não vão correr o risco que correm hoje tendo que clandestinamente fazer abortos em clínicas criminosas.
– Presidente, temos agora uma pergunta de Brasília: "Eu quero saber se com essa lei de não poder fumar em lugares fechados se isso vai zerar ou vai atrapalhar, porque quanto mais proíbem, mais as pessoas gostam".
– Eu penso que não se trata de proibição, obviamente que se você fumar em lugar fechado você está fazendo com que quem não fuma se torne um fumante também porque está respirando a fumaça do cigarro do outro. O ministro [da Saúde, José Gomes] Temporão já mandou para a Casa Civil uma proposta. A Casa Civil está em fase final de avaliar e eu vou mandar para o Congresso Nacional [o projeto] proibindo fumar em locais fechados, ou seja, só se o cara estiver sozinho, quiser fumar e quiser se matar ele pode.
– O senhor já decidiu parar de fumar?
– É o seguinte, todo mundo sabe que fumar faz mal. Ninguém é inocente, todo mundo sabe que fumar faz mal. Todo mundo que usa drogas sabe que faz mal. Todo mundo que bebe exageradamente sabe que faz mal. Por que as pessoas continuam? Porque são viciadas. Por isso as pessoas continuam. Eu conheço gente que já tentou de parar de fumar 20 vezes. Eu lembro na Constituinte, o coitado do Mário Covas tinha parado de fumar e ficava tão nervoso, que ele andava com o cigarro na mão o dia inteiro. Onde você encontrava o Mário Covas, ele estava com o cigarro na mão. Eu acho que quando a pessoa toma consciência, ela vai e pára. Mas se quer manter seu vício, não prejudica os outros. Eu acho que é isso que deve acontecer. Mas eu não terei nenhum problema de mandar a lei (para o Congresso Nacional).
– O senhor acha que a gente está instaurando no Brasil um estado policial, ou seja, não pode fumar em lugar algum, os restaurantes não podem nem criar uma área para fumantes. Como o senhor falou, quem quiser se matar se mata. Vamos dar às pessoas que querem se matar o direito de se matar, mas não pode fumar em lugar algum. Não pode dirigir tendo bebido um ou dois copos de cerveja, ou seja, no Brasil é oito ou oitenta.
– Vamos relativizar, porque as coisas que parecem tão más, não são tão más assim. Vamos começar pelo cigarro outra vez. Se você estiver no restaurante, uma determinada sala destinada aos fumantes, tem os garçons, então você só poderia permitir que entrasse lá os garçons que fumam também, porque se não você teria os passivos lá, o que não seria correto. É bem possível que os restaurantes sejam criativos. Com relação à bebida, vamos ser francos, foi um benefício extraordinário essa Lei Seca. Mas isso não impede que a pessoa beba. Agora, se a pessoa bebe, vai com um companheiro que não bebe ou pegue um táxi e vá beber. Ninguém está dizendo para a pessoa não beber. O que estamos dizendo é que ele não pegue estrada bêbado, porque o carro vira uma arma na mão dele. Não estamos proibindo ele de beber. Se quiser comprar um litro de uísque e encher a cara dentro de casa, ele que o faça, não é recomendável, mas o que nós não queremos é que ele se transforme uma arma poderosa contra pessoas inocentes. Às vezes você sai de carro com todo cuidado com a sua família dentro para passear, vem um cara bêbado irresponsável que acaba com a tua família. Então essa lei foi um benefício extraordinário. Eu tenho muitos amigos donos de bar que falam 'pôxa, presidente, diminuiu a minha freguesia'. Eu falei: 'contrata um motorista para levar o cliente em casa e dá de presente a última dose ou o último chopp'.
– Por falar em bar e conversa de bar, e o Dunga e a seleção brasileira? O que o senhor acha do Dunga, deve continuar ou deve sair?
– Eu não acho que o culpado é o Dunga. Veja, é importante lembrar que nós ficamos de 1970 até 1994, sem ganhar uma copa do mundo. Foram 24 anos e passaram dezenas de técnicos pela seleção brasileira, inclusive um dos melhores, que foi o Telê Santana que levou para campo aquela seleção extraordinária, e nós perdemos duas copas com o Telê Santana. Então o problema não é o técnico, o problema é que é preciso um pouco mais de amor à causa. Um torcedor quando vai no estádio ou você está na frente da televisão o que você quer? Você quer que o jogador se esforce, que o ele demonstre que está brigando para ganhar o jogo. Corra atrás da bola.
– Você acha que tem muito jogador estrangeiro na seleção? Gente que está jogando no exterior? Ganhando muito dinheiro?
– Qual é o problema? Que os melhores vão embora. Esse é o dilema do futebol brasileiro, é que quando o cidadão começa a ficar um pouquinho melhor, ele é comprado. E aí ele é convocado porque é brasileiro. Eu penso que essa meninada que é convocada talvez sejam os melhores mesmo. Eu não fico vendo uma safra de grandes jogadores. As pessoas ficam reclamando do Diego, mas é importante lembrar que este país já teve um jogador como Ademir da Guia que não era nem convocado para a seleção brasileira. Porque tinha o Pelé, o Rivelino e o Gérson. Você tem hoje na seleção jogador que é reserva nos times estrangeiros. Agora é melhor do que o que está jogando aqui.