A necessidade do combate à fome em âmbito mundial voltou a ser defendida nesta terça-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 11a Unctad, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, que se realiza no Anhembi, em São Paulo.
"Com fome não há cidadania e sem cidadania não se constrói uma sociedade justa e democrática", afirmou em seu discurso no painel sobre formas inovadoras de financiamento ao desenvolvimento.
Lula considerou "relativamente modestos" os 50 bilhões de dólares em recursos adicionais que a ONU e o Banco Mundial estimam ser necessários para se atingir as Metas do Milênio, argumentando que eles equivalem a menos do que dois meses de subsídios agrícolas dos países ricos ou menos do que três semanas dos gastos militares em todo o mundo.
O presidente citou algumas das fontes de recursos que estão sendo estudadas pelo grupo de trabalho para a implementação de um fundo mundial de combate à fome e à pobreza, como a taxação dos paraísos fiscais e a criação de um imposto sobre o comércio de armamentos.
O grupo deve apresentar no próximo mês uma proposta concreta para a fonte de recursos que possa ser analisada por chefes de governo e de Estado antes da reunião de 20 de setembro, em Nova York, quando o tema será discutido.
Para Lula, quem passa fome "não faz revolução", mas está condenado à "total submissão".
Mais tarde, ao falar com representantes do Fórum da Sociedade Civil, que congrega mais de 200 organizações não-governamentais de cerca de 60 países e que acontece junto à Unctad, Lula fez um apelo para que todos participem do combate à pobreza.
"A luta contra a pobreza do mundo precisa estar nas universidades, nos sindicatos... precisamos ter isso como uma questão do cotidiano".
Ainda no painel, o presidente reafirmou a necessidade de o Fundo Monetário Internacional (FMI) flexibilizar seus critérios de contabilização com os países em desenvolvimento.
"Os critérios do FMI para os países em desenvolvimento devem ser adaptados de modo que os investimentos em infra-estrutura não sejam contabilizados como gastos", disse o presidente.
A mudança vem sendo defendida pelo Brasil e Lula tem tentado sensibilizar não apenas o organismo mas também chefes de Estados e de governo de vários países.
O presidente reconheceu, porém, que a mudança não virá facilmente. "Ninguém cede a ninguém se não houver um pouco de briga e uma boa briga faz bem para o fortalecimento da democracia."
Lula também criticou a liberalização econômica realizada na América Latina nos últimos anos, dizendo que ela não contribuiu para o fim dos "desequilíbrios macroeconômicos, financeiros e tecnológicos".
Ao defender a disciplina fiscal, o presidente ressaltou que ela é "condição necessária, mas não suficiente" e que é preciso pensar novas formas de desenvolvimento com inclusão social.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, presente ao evento, também pediu criatividade, mas lembrou que é preciso apresentar propostas que consigam apoio político.
"Precisamos pensar de forma criativa. Precisamos pensar no que os setores público e privado podem fazer. Precisamos gerar idéias que, além de tecnicamente viáveis, atraiam um apoio político generalizado", disse Annan.