Rio de Janeiro, 17 de Setembro de 2026

Lula pode sofrer revés político com rejeição da reeleição

Quinta, 20 de Maio de 2004 às 18:11, por: CdB

A rejeição da emenda da reeleição na Câmara deve trazer conseqüências negativas para o governo, que optou pela estratégia da neutralidade a apoiar publicamente a recondução dos presidentes José Sarney (PMDB-AP) e João Paulo Cunha (PT-SP) às presidências das duas Casas.

Ao não entrar na disputa política, o governo desagradou aliados importantes, como o presidente do Senado, um dos maiores interessados na reeleição. Sarney ficou contrariado com a falta de ajuda do Palácio do Planalto para aprovar a emenda.

Segundo interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, o risco de ficar em silêncio foi calculado, embora esteja planejada uma avaliação precisa dos efeitos da rejeição da emenda.

A esfera de influência de Sarney vai além de seu partido, passando pelo PSDB e pelo PFL. Além da bancada pefelista do Maranhão, Sarney tem seguidores tucanos fiéis, como Tasso Jereissati (CE), um dos nomes ventilados por ele para concorrer a seu posto.

A proposta que garantia a reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado foi rejeitada nesta quarta-feira por 303 votos a favor, 127 contra e nove abstenções. Para aprová-la, eram necessários 308 votos favoráveis.

Renan Calheiros (PMDB-AL), principal responsável pela derrota da emenda na Câmara, exigia o cumprimento de um acordo feito com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, no início do governo, para suceder Sarney.

"O governo demonstrou isenção. Se não tivesse mantido essa isenção, com certeza teríamos outro resultado", afirmou Calheiros. Ele admitiu que convocou os ministros peemedebistas para convencer deputados a votar contra a emenda.

A atuação agressiva do líder peemedebista na Câmara tinha como objetivo evitar que a disputa chegasse ao Senado, onde "o jogo seria muito baixo."

A estratégia de Calheiros foi criticada pelo senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), reconhecido por colegas como o porta-voz de Sarney nesse assunto.

"Houve uma prática lamentável de se votar por vantagens ... Lula não pode fazer leilão de seu governo com forças políticas que só querem levar vantagem. Refiro-me ao PMDB", afirmou o senador, que até então comportava-se como aliado do Planalto.

O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), resumiu: "ACM, que sempre ajudou o governo, soltou os cachorros."

O TROCO

Nos corredores do Congresso, há o temor de o presidente do Senado jogar duro e no momento certo. "Não tenho nenhuma dúvida de que o Sarney vai dar o troco, conheço-o muito bem. Ele vai esperar uma oportunidade e vai marcar presença", disse um importante senador da oposição.

Até mesmo parlamentares petistas avaliam que o presidente da Casa pode atrapalhar bastante a governabilidade do presidente Lula no Congresso. "Ele é o dono da pauta, vai esperar uma oportunidade e marcar presença", afirmou um senador do PT.

Na avaliação do Palácio do Planalto, porém, Calheiros é tão forte quanto Sarney. Além disso, a argumentação é de que esse episódio não terá impacto na votação do salário mínimo e de outros projetos prioritários para o governo.

O líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), descreveu a derrota na Câmara como "falta de comando político". "A bancada do PMDB (na Câmara) simplesmente desautorizou Sarney."

Senadores peemedebistas disseram que, ao usar sua influência em outras siglas, Sarney fica enfraquecido dentro do PMDB, que possui a maior bancada no Senado.

Para conter um eventual enfraquecimento da base aliada, o presidente Lula está decidido a propor uma nova relação com o Congresso. Ele estaria "muito contrariado" com a falta de unidade da base.

"Eu não admito isso", teria dito, segundo o líder do PT na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), após reunião entre o presidente e líderes da base aliada na Câmara.

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