Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Lula não viaja sem antes alfinetar José Serra

A taxa de juros no Brasil subirá, se necessário, ainda que o país esteja vivendo um ano eleitoral. A afirmativa foi do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma entrevista a um canal brasileiro de televisão, na qual afirmou que seu desejo, após deixar a Presidência, é estudar Economia, para saber mais sobre números. "O Serra, por exemplo, sabe tudo o que não sabia quando estava no governo"

Quinta, 13 de Maio de 2010 às 09:44, por: CdB

A taxa de juros no Brasil subirá, se necessário, ainda que o país esteja vivendo um ano eleitoral. A afirmativa foi do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma entrevista a um canal brasileiro de televisão, divulgada na noite anterior, pouco antes do embarque para Moscou, onde chegou na manhã desta quinta-feira.

– Estabilidade econômica e controle da inflação são obrigações nossas – disse o presidente em entrevista ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

Em sua última reunião, em abril, o Banco Central elevou a taxa básica de juro da economia em 0,75 ponto percentual, para 9,50 por cento, a primeira alta desde setembro de 2008, alegando temores com a inflação.

– Se (o juro) tiver que subir, vai subir – respondeu Lula, ao ser perguntado se poderá haver nova alta na taxa Selic neste ano.

Referindo-se à crise financeira no Brasil ocorrida durante o período eleitoral, Lula afirmou que jamais permitiria que, "por conta de uma eleição, a gente deixe a economia desandar como deixaram em 2002". Naquele ano, Lula elegeu-se presidente pela primeira vez.

– Quem pensar nisso vai quebrar a cara – declarou.

Na entrevista, Lula não deixou de alfinetar o pré-candidato tucano à sua sucessão. Ele disse que gostaria de cursar Economia depois de deixar a Presidência porque os economistas sabem muito, mas economistas na oposição sabe mais ainda.

– Eu gostaria de ser economista. Eu acho chiquérrimo porque eles sabem muitos números. Quando estão na oposição, sabem mais ainda. O Serra, por exemplo, sabe tudo o que não sabia quando estava no governo – afirmou.

República islâmica

Lula também falou sobre sua visita de dois dias ao Irã, nesta semana, e reafirmou o direito da República Islâmica a um programa nuclear para fins pacíficos.

– O Brasil tem soberania de fazer política internacional independentemente do que pensam os outros países – disse, ao comentar as críticas das potências ocidentais à posição brasileira diante do impasse iraniano.

A viagem ao Irã faz parte da estratégia de conquistar para o Brasil um espaço maior no cenário internacional, embora o movimento seja visto com ceticismo por outros países. Na capital Teerã, Lula irá se reunir com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. O Irã está no centro de uma disputa internacional envolvendo seu programa nuclear. Lideradas pelos Estados Unidos, potências ocidentais afirmam que o país busca a fabricação de armas nucleares e defendem a aplicação de uma nova rodada de sanções pela Organização das Nações Unidas (ONU). Teerã nega as acusações.

O Brasil mantém um programa nuclear para fins pacíficos, sobretudo para a geração de eletricidade, tem em sua Constituição um veto ao uso da tecnologia para a construção de armas e defende o mesmo direito ao país islâmico.

– Eu quero para o Irã o que eu quero para o Brasil. Eu não tenho outro compromisso com o Irã a não ser o compromisso de tentar convencer o Irã de que a paz é melhor do que a guerra – afirmou.

Lula também destacou a falta de diálogo das grandes potências com o Irã e o isolamento político imposto a Ahmadinejad.

– O que eu acho grave é que nenhuma grande potência até agora conversou com o presidente do Irã. São funcionários de terceiro escalão que estão conversando. É preciso fazer um esforço político... As pessoas não conversam quando têm que conversar – disse.

Preocupação

Antes de desembarcar em Moscou, Lula afirmou que, a exemplo do Brasil, o governo russo busca o diálogo como alternativa de evitar sanções ao Irã impostas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Na viagem, o programa nuclear iraniano é um dos temas, assim como a reforma do conselho e uma série de acordos bilaterais para ampliar as relações comerciais entre russos e brasileiros.

Como a chegada do presidente à capital russa estava prevista apenas para o final desta tarde, a agenda dele se concentra nesta sexta-feira.  Lula terá reunião com o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, e participa de um fórum empresarial Brasil-Rússia. Entre um compromisso e outro, o presidente presta homenagens à vítimas Segunda Guerra Mundial. Depois, segue para o Catar e o Irã.

Nas conversas com Medvedev, Lula deverá manifestar sua preocupação com a eventual sanção imposta ao Irã pelas suspeitas de que seu programa nuclear esconda a produção de armas atômicas. Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia tem direito a veto no órgão – ao lado dos Estados Unidos, da França, China e Inglaterra.

Para o presidente brasileiro, ainda há espaço para o diálogo entre o Irã e a comunidade internacional. O governo do presidente norte-americano, Barack Obama, insiste na imposição de sanções por suspeitar que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, não revele a verdade. A pressão dos Estados Unidos conta com o apoio dos franceses, ingleses e alemães.

Determinado a garantir espaço para o Brasil em uma eventual reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lula vai pedir o apoio de Medvedev. A estrutura atual do órgão é de dez vagas provisórias – uma delas é ocupada por dois anos pelo Brasil – e cinco permanentes. O governo brasileiro defende a ampliação de 15 para 25 assentos.

Em nome de uma relação bilateral de 180 anos, Lula lembrará que da forma como o conselho está organizado ele não reflete o mundo do século 21. Também ressaltará os avanços conquistados pelo Brasil e a importância do país no Hemisfério Sul. De acordo com diplomatas, Medvedev tem simpatia pelo pleito do governo brasileiro.

Da Rússia, o presidente segue nesta sexta-feira para uma rápida visita ao Catar. Na capital, Doha, Lula se reúne com o emir Hamad bin Khalifa Al Thani. É a primeira vez que um presidente brasileiro vai ao país muçulmano. Em seguida, Lula se reúne com Ahmadinejad, no Irã.

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