Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva colocou panos quentes na situação de aparente divergência entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sobre o estágio da inflação. Ambos estariam certos em suas posições, disse. Mantega tem repetido que a inflação está caindo, depois de pressão recente relacionada aos alimentos, enquanto Meirelles afirma que o BC vai combater o problema "com vigor", sinalizando mais altas dos juros.
– Acho que os dois estão certos. Ou seja, a inflação chegou a cair no mundo, as commodities começaram a baixar, mas naturalmente temos que estar sempre alertas porque a crise americana não foi totalmente desvendada. Nós não sabemos ainda quais os efeitos dela (crise nos EUA) na economia, portanto o Guido está certo e o Meirelles está certo. Precisamos estar alertas para não permitir que problemas em economias externas venham a causar problemas no Brasil – disse o presidente, em entrevista à agência inglesa de notícias Reuters, na embaixada brasileira em Pequim, algumas horas antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos.
Além de angariar apoio chinês para a candidatura brasileira a sede dos Jogos de 2016, Lula e o presidente chinês, Hu Jintao, conversaram sobre a Rodada de Doha e assuntos da pauta de comércio entre os dois países. O presidente brasileiro afirmou que tanto Jintao como o presidente norte-americano George W. Bush, com quem conversou na semana passada, foram receptivos à idéia de retomar rapidamente as negociações para finalizar Doha.
– Acho que de maneira geral está todo mundo convencido de que a gente precisa ceder alguma coisa para que os países mais pobres ganhem algo – disse ele, para quem o Brasil não perderia muito sem um novo acordo.
Segundo o presidente, ele gostaria de buscar uma retomada tão breve como setembro, mas isso seria improvável, de acordo com declarações recentes do porta-voz da Organização Mundial do Comércio (OMC), Keith Rockwell. Ele afirmou que a entidade paralisa suas atividades quase por completo em agosto, no verão.
– Temos que ter a consciência de que a rodada não é para beneficiar Estados Unidos, Europa ou o Brasil – disse o presidente, acrescentando que a questão entre Índia e EUA, sobre as salvaguardas a agricultores indianos, responsável pelo colapso das negociações no mês passado em Genebra, era uma "divergência menor" que poderia ser resolvida.
Lula chegou à China na quarta-feira e na quinta manteve uma reunião de trabalho com Hu Jintao.
Questões políticas
Em relação à polêmica sobre o Tibete e a questão dos direitos humanos na China, Lula afirmou que o local e o momento não eram os adequados para discutir esses temas.
– Não vim pra cá para discutir direitos humanos. Isso deve ser discutido em outra oportunidade. Eu vim para a abertura das Olimpíadas – afirmou.
Lula afirmou que o Brasil considera a China um parceiro estratégico e que o objetivo é levar as trocas comerciais entre os dois "para um patamar bem mais alto do que os atuais 30 bilhões de dólares". A China importa sobretudo commodities do Brasil, principalmente soja e minério de ferro, e exporta produtos manufaturados. O presidente brasileiro afirmou que o fato de a China sediar a Olimpíada neste ano pode ajudar a candidatura brasileira, porque abre espaço também para os países emergentes.
– É preciso colocar na cabeça dos membros que dirigem o Comitê Olímpico Internacional que a Olimpíada não pode ser feita apenas nos países ricos. Não podemos discutir somente quanto custa uma Olimpíada, tem que discutir o benefício que ela traz para o país, antes durante e depois que ela terminar – disse.
Ao final da entrevista, questionado sobre o panorama para a sua sucessão e como pretendia definir o candidato, o presidente foi evasivo.
– Não, eu não sei. Não tem pressa. Eu tenho dois anos e seis meses para governar o Brasil, as coisas estão acontecendo de forma bem planejada, e eu só vou começar a me preocupar com a eleição no final de 2009 – afirmou.
O presidente deixou a embaixada pouco depois da entrevista, dirigindo-se a uma recepção que o presidente Hu Jintao estava oferecendo a todos os chefes de Estado que vieram para a abertura dos Jogos. Antes, no entanto, participou de uma rápida reunião com o presidente israelense, Shimon Peres, a pedido desse. Assessores disseram que o encontro foi organizado de última hora e não sabiam o tema que o governo de Israel gostaria de tratar com o presidente brasileiro.