Rio de Janeiro, 05 de Abril de 2026

Lula e seus bons companheiros

Por José Maria Rabêlo - Quem te viu, quem te vê! O partido das vestais, que a todos estigmatizava com suas bulas condenatórias, transformou-se em parceiro do que há de mais bandidesco na política brasileira. Entre o cenário nebuloso do mensalão e do caixa-dois, que o próprio presidente considera normais, e o espetáculo público das alianças espúrias, não há praticamente nenhuma diferença. (Leia Mais)

Segunda, 10 de Julho de 2006 às 13:54, por: CdB

Quem te viu, quem te vê! O partido das vestais, que a todos estigmatizava com suas bulas condenatórias, transformou-se em parceiro do que há de mais bandidesco na política brasileira. Entre o cenário nebuloso do mensalão e do caixa-dois, que o próprio presidente considera normais, e o espetáculo público das alianças espúrias, não há praticamente nenhuma diferença. Ambos atestam a degradação moral e a necrose política da legenda que surgiu como expressão da transparência na vida pública.

Durante anos, o PT agiu como o mais severo censor dos costumes. Quem não fosse do partido não teria a graça da salvação, numa postura sectária e maniqueísta que lembrava as práticas da Inquisição. Ninguém, de direita ou de esquerda, à exceção dos devotos da seita, escapava à fúria condenatória do Santo Ofício caboclo. Eles eram os únicos bons, honrados, comprometidos com a moralidade.

Essa imagem puritana, trabalhada com a eficiência dos mais caros marqueteiros, foi um dos fatores decisivos da eleição de Lula à presidência e de outras vitórias da sigla. Segundo a propaganda, ele chegava lá para implantar as virtudes da eugenia ética petista.

Mas, como é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo, como diz a sabedoria popular, essa imagem enganosa espatifou-se ao primeiro contato com a luz do dia. Um a um, os principais colaboradores do governo foram caindo sob o peso dos escândalos, que, só por milagre, não alcançaram a própria figura do chefe. Para ver a magnitude desse tsunami, basta lembrar os crimes de que é acusado seu todo poderoso ex-ministro da Fazenda: peculato, abuso de autoridade, concussão e formação de quadrilha. Metade do governo e dos dirigentes do PT foram acusados pelo Procurador Geral da República como integrantes de uma quadrilha que assaltava os cofres públicos.

Se havia dúvidas quanto à complacência de Lula com esses desregramentos morais, elas não existem mais. Na busca da reeleição, todos os escrúpulos são jogados pela janela. Os inimigos de ontem, excomungados pelo partido, tornam-se os aliados de hoje, com direito a lugar de relevo nos palanques da campanha. Por oportunismo e sede de poder, o PT os reabilita perante o sutil pragmatismo de seus códigos de honra.

Pelos palanques vão desfilar, exibindo seus recentes diplomas de bons costumes dados pelo petismo, as mais finas flores do pântano político nacional: Sarney, Moreira Franco, Geddel de Lima, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Severino Cavalcanti, e, se for preciso, até mesmo Fernando Collor, que está à disposição no banco de reservas. Ah, ia me esquecendo. Tem também o ex-governador de Minas, Newton Cardoso, esse mafioso personagem que os petistas batizaram de "Porcão", em evidente alusão aos piores aspectos de seu currículo, ou melhor dizendo, de seu prontuário. Pois agora o "Porcão" vai ser o candidato deles ao Senado, por escolha pessoal do presidente da República. "O Lula foi o grande articulador de minha candidatura", explicou eufórico o ex-governador de Minas. E acrescentou: "Sempre tive grande admiração por ele."

Admiração, que, por certo, deve ser recíproca, pelos valores que orientam as atuais preferências de Lula.

Nessa batida, a "expansão das bases", como o processo está sendo chamado pelos seus articuladores, deve  recrutar também o Hildebrando Pascoal e sua motosserra, o Marcola e o Fernandinho Beira-Mar, que, pelos seus antecedentes, não poderão ficar fora desses arranjos.

E assim, "la nave va", recolhendo as sujeiras do mar.

Tags:
Edições digital e impressa