Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Lula e FHC são a mesma coisa?

Por Marco Weissheimer - Para o cientista político Juarez Guimarães, governo Lula manteve os fundamentos da política econômica de FHC, mas está implementando uma série de políticas estratégicas que apontam para uma outra concepção de Estado, muito distinta daquela defendida pelo governo anterior. (Leia Mais)

Sexta, 02 de Abril de 2004 às 07:47, por: CdB

Passados quinze meses do governo Lula, paira no ar um sentimento de que nada mudou, uma impressão de que o atual governo é uma espécie de terceiro tempo do governo Fernando Henrique Cardoso. Os fundamentos da política econômica do governo anterior foram mantidos e o país continua aguardando, com crescente impaciência como indicam as pesquisas mais recentes, o "espetáculo do crescimento". Afinal de contas, os governos Lula e FHC são a mesma coisa? Há alguma diferença significativa entre os dois? Na avaliação do cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e editor do Periscópio (boletim mensal da Fundação Perseu Abramo), o governo Lula, de fato, não está fazendo uma transição do ponto de vista da política econômica, mas está implementando uma série de políticas estratégicas que apontam para uma outra concepção de Estado, radicalmente distinta daquela defendida por FHC e seus aliados.

Em um debate realizado na noite do dia 31 de março, na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Guimarães analisou as diferenças estratégicas entre os dois governos, a partir de uma entrevista concedida por Fernando Henrique Cardoso ao jornal O Globo, no dia 15 de fevereiro. Para ele, as críticas que o ex-presidente dirige ao projeto de desenvolvimento do governo Lula permitem identificar diferenças significativas entre duas concepções de Estado. O atual governo, defende o cientista político, está implementando um conjunto de políticas que são corretamente apontadas por FHC como distintas daquelas que ele aplicou em seus oito anos de governo. Essas diferenças, sustenta Guimarães, devem ser compreendidas em seus detalhes por todos aqueles que estão buscando respostas e saídas para a atual crise do Estado brasileiro. A análise de Juarez Guimarães será apresentada em dois artigos. Neste primeiro, ele aponta as diferenças programáticas entre os dois governos. O segundo abordará as contradições da concepção de Estado que anima o governo Lula e a política econômica que vem sendo implementada.

As críticas de FHC
O ponto de partida da análise de Juarez Guimarães é a entrevista concedida por Fernando Henrique ao O Globo, na qual o ex-presidente faz um conjunto de críticas ao projeto de desenvolvimento nacional proposto pelo governo Lula. A natureza dessas críticas evidencia, segundo o professor da UFMG, diferenças de fundo entre os dois governos. Nesta entrevista, observa Guimarães, Fernando Henrique define o campo de disputa programática com o governo Lula, ao defender os princípios e valores que orientaram a política desenvolvida em suas duas gestões. O ex-presidente critica a idéia de que a saída para a crise atual passa pela implementação de um projeto nacional de desenvolvimento, onde o Estado teria um papel protagonista como agente indutor da abertura de um novo ciclo de crescimento. Para ele, essas idéias são arcaicas e atrasadas.

Por outro lado, FHC elogia a condução da política macroeconômica do governo Lula e chega a dar um conselho ao presidente da República. Para ele, o atual governo precisa superar uma ambigüidade, a saber, ao mesmo tempo em que mantém fundamentos da política econômica aplicada em seu governo, Lula estaria flertando perigosamente com a idéia de desenvolvimentismo. Para o ex-presidente, apostar só no crescimento é uma armadilha; os governos, em geral, são reféns do mercado; o crescimento depende hoje muito mais do mercado do que do desenvolvimento de projetos nacionais; o governo Lula precisa abandonar essa idéia do espetáculo do crescimento e manter a atual política responsável na economia.

É importante lembrar que essa "política responsável na economia" foi amplamente reprovada pela sociedade brasileira nas eleições presidenciais de 2002. Ao longo dos últimos dez anos predominou a idéia segundo a qual privatizar seria o caminho do crescimento, que dar total liberdade aos fluxos do capital financeiro internacio

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