Rio de Janeiro, 05 de Outubro de 2026

Lula critica o capitalismo em artigo ao <i>FT</i>

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse esperar um mundo mais "humano" após a eventual recuperação da economia mundial, em um artigo exclusivo na página de opinião do jornal Financial Times desta terça-feira. "Não estou preocupado com o nome que será dado à nova ordem econômica e social que virá depois da crise, desde que seu principal foco seja o ser humano", diz Lula no jornal. 'Hoje ninguém ousa prever qual será o futuro do capitalismo'

Terça, 10 de Março de 2009 às 07:32, por: CdB

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse esperar um mundo mais "humano" após a eventual recuperação da economia mundial, em um artigo exclusivo na página de opinião do jornal Financial Times desta terça-feira. "Não estou preocupado com o nome que será dado à nova ordem econômica e social que virá depois da crise, desde que seu principal foco seja o ser humano", diz Lula no jornal.

O texto faz parte de uma série de debates e artigos promovida pelo diário britânico sobre o futuro do capitalismo.

"Hoje ninguém ousa prever qual será o futuro do capitalismo", afirma Lula. "Como líder de uma grande economia descrita como 'emergente', o que posso dizer é que tipo de sociedade espero que apareça depois desta crise". Lula diz ainda ter "esperanças de um mundo livre dos dogmas econômicos que invadiram as ideias de muitas pessoas e que foram apresentados como verdades absolutas".

"Políticas anticíclicas não deveriam ser adotadas apenas em épocas de crise. Aplicadas com antecedência - como foi feito no Brasil - elas são a garantia de uma sociedade mais justa e democrática", escreve o presidente.

Lula ainda descreve outras expectativas que tem para o fim da atual crise econômica global.

"(Espero que surja) uma sociedade que vai valorizar a produção e não a especulação. A função do setor financeiro será de estimular a produtividade - e ele estará sujeito a um controle rigoroso nacional e internacional. O comércio exterior será livre do protecionismo que está mostrando sinais perigosos de estar se intensificando", diz.

Lula também menciona suas esperanças de uma reforma nas organizações multilaterais e de um novo sistema de governança global. Em boa parte do artigo, o presidente também relembra sua infância no interior de Pernambuco, o início de sua vida de metalúrgico em São Bernardo do Campo (SP) e sua trajetória política até ser eleito em 2002.

"Para mim o capitalismo nunca foi um conceito abstrato. Ele é real, uma parte concreta do nosso dia-a-dia", escreve. Em seu artigo, Lula refere-se ao tempo em que saiu do Nordeste, rumo ao Sul do Brasil, à coragem da mãe dele, à série de empregos informais, à pouca educação: "Meu único diploma é o de operador de torno mecânico, em um curso do Serviço Nacional da Indústria". O presidente brasileiro também lembra, no artigo aos ingleses, que foi líder de greves no país, no início do retorno à democracia, ainda sob o comando dos militares. Segundo o presidente, esta trajetória levou o Partido dos Trabalhadores a protestar contra uma forma de capitalismo, no Brasil, que "não é apenas uma questão de baixos salários, trabalho insalubre e repressão aos movimentos sindicais".

O capitalismo, no país, "também se expressava em uma política econôimica e em uma série de políticas governamentais baseadas nas restrições às liberdades civis", diz o presidente no artigo. E continua: "Junto com milhões de trabalhadores, descobri que isso não bastava exigir melhores salários e condições de trabalho. Era necessário lutar por cidadania e por uma profunda reorganização da vida econômica e social" no Brasil.

Este rol de políticas públicas adotadas ao longo do governo de Lula, diz ele, "permitiu que acumulássemos US$ 207 bilhões (€164 bilhões, £150 bilhões) em reservas estrangeiras e por meio disso proteger-nos dos piores efeitos de uma crise financeira que, criada no centro do capitalismo, ameaça à estrutura inteira da economia global".

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