O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que mais que discutir na ONU quem tinha razão sobre a guerra do Iraque, agora é preciso consolidar condições em que a tomada de decisões na organização seja democrática, coletiva, e não mais adotadas de forma unilateral.
Lula abordou o tema na entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira, em Madri, junto com o presidente espanhol, José María Aznar.
Perguntado sobre as antagônicas atitudes de Brasil e Espanha em relação ao conflito do Iraque, o presidente brasileiro disse que sua posição foi esclarecida antes, durante e depois da guerra.
Também contou que no último dia 10 de dezembro falou com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, sobre este assunto, e comentou que sua guerra como presidente do Brasil era "contra a fome, não contra o Iraque".
"Ele teve as suas razões e eu as minhas", disse Lula, acrescentando que "o tempo vai se encarregar de dizer quem tinha razão e quem não tinha".
No entanto, mais que buscar quem estava certo, o presidente do Brasil disse que é preciso buscar as condições para que "as Nações Unidas sejam democratizadas", para que suas decisões sejam coletivas e não sejam necessárias mais medidas de caráter unilateral.
Esse é o motivo pelo qual reiterou sua defesa de que o Brasil e outros países passem a fazer parte como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
Aznar comentou a questão dizendo que apesar de hoje a Espanha e o Brasil terem acertado um aliança estratégica, não significa que tenham que estar cem por cento de acordo em tudo.
Antes de reunir-se com Aznar, o presidente brasileiro teve nesta quarta-feira um encontro com o prefeito de Madri, Alberto Ruiz-Gallardón, que disse que compartilha com Lula "a paixão de transformar a realidade quando esta é claramente injusta ou insuficiente".
Em sua chegada à sede da prefeitura madrilenha, Lula foi recebido pelo prefeito, parte da equipe de governo municipal e pelos porta-vozes da oposição.
Segundo Ruiz-Gallardón, "a melhor aposta que uma sociedade pode fazer por seu futuro" é o que tenta Lula:
- Pôr fim à corrupção, combater o narcotráfico e extirpar as marcas da fome, da miséria e do analfabetismo, apoiando-se em um investimento em infra-estrutura.
Acrescentou que "existem grandes possibilidades de entendimento" entre Brasil e Espanha e ofereceu ao presidente a colaboração de Madri "para que também as cidades brasileiras possam percorrer o caminho que leva do pesadelo ao sonho".
Antes de entregar a Lula da Chave de Ouro de Madri, Gallardón ressaltou a "capacidade empreendedora" da capital e lembrou que "os empresários madrilenhos deram boas amostras de seu interesse" pelo Brasil.
Por sua vez, Lula agradeceu o "carinho e a amizade" com que os madrilenhos receberam sua comitiva e disse que esta cidade é "uma referência para o século XXI" e "um exemplo a ser admirado" por sua pluralidade cultural e seu desenvolvimento econômico.
A entrega das chaves, segundo Lula, "representa o desejo de abrir as portas de Madri para a nova realidade do Brasil, um Brasil que se pauta pela solidariedade humana, pela justiça social e pela procura do bem-estar de seu povo".
Na sua opinião, este ato também serve "para renovar a amizade" entre a Espanha e o Brasil, que tem como "mais alta responsabilidade zelar pelos direitos sociais e políticos", tanto dentro de suas fronteiras como em foros internacionais.
Lula concluiu seu discurso dizendo que conta com a Espanha para "construir um cenário múltiplo e diversificado, no qual possa se viver de forma harmônica e pacífica, sem hegemonias".