O ex-bispo Fernando Lugo tomou posse na sexta-feira como presidente do Paraguai, prometendo pôr em prática seus ideais socialistas para combater a pobreza e a corrupção.
A cerimônia marcou o fim de 61 anos de hegemonia política do conservador Partido Colorado.
- Hoje termina um Paraguai exclusivo [dos ricos], um Paraguai segregacionista, um Paraguai com fama de corrupção. Hoje se inicia a história de um Paraguai cujas autoridades serão implacáveis com os ladrões do povo - disse o novo presidente, vestindo um traje típico e simples, após prestar juramento num palanque ao ar livre.
Lugo, de 57 anos, não costuma usar terno e gravata e habitualmente calça sandálias, uma reminiscência do estado clerical que ele deixou oficialmente há poucas semanas, por decreto do papa Bento 16, para poder assumir a presidência do país. Ele já havia se desligado do sacerdócio para se dedicar à política.
O agora ex-presidente Nicanor Duarte Frutos preferiu entregar a faixa presidencial ao Congresso, e não diretamente ao sucessor, o que fez com que ambos não se encontrassem, apesar de não haver inimizade pessoal entre eles.
No pronunciamento que fez na praça do Congresso, diante do olhar dos colegas Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner (Argentina), Lugo pediu aos vizinhos que tenham "objetividade e solidariedade".
Uma das principais promessas de campanha de Lugo é renegociar o valor que Brasil e Argentina pagam pela energia gerada nas usinas binacionais de Itaipu e Yaciretá, respectivamente.
Apesar do discurso de esquerda, Lugo escolheu um ministério moderado e se mostrou disposto a abrir as estatais ao capital privado, num modelo misto de gestão, além de promover boas relações com os EUA.
A posse dele reuniu os principais dirigentes esquerdistas da região, como Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). Já os centro-direitistas Álvaro Uribe (Colômbia) e Alan García (Peru) preferiram enviar representantes.
De fora da região, o único mandatário presente era o presidente de Taiwan, já que o Paraguai é um dos poucos países do mundo que reconhece o governo da China nacionalista, e não o de Pequim.
Ao som de música folclórica, a posse foi assistida por milhares de paraguaios, que mantinham o clima de festa apesar da longa espera sob o sol.
- A vida inteira pedi um homem justo para o meu país. E acho que meu coração e Deus estão dizendo que esse que hoje está jurando diante do povo é este homem justo - disse a dona de casa María Elodia Nendieta.
Os presidentes e representantes estrangeiros assistiram a uma missa na catedral, à qual Lugo chegou em carro aberto, já portando a faixa presidencial sobre a camisa branca. Em seguida, ele recebeu cumprimentos e ofereceu um almoço no palácio.
O venezuelano Chávez permanecerá no Paraguai para, no sábado, firmar tratados bilaterais que resultarão no envio de combustível em condições preferenciais e possivelmente em investimentos da Venezuela para uma refinaria no Paraguai.
- Viemos a uma reunião histórica. A reunião com Lugo é uma reunião com a história - disse Chávez ao pousar na quinta-feira em Assunção, onde agora deve passar a ter uma presença tão constante quanto na Bolívia de Evo Morales.
- Não pudemos anteriormente ultrapassar certos limites [no Paraguai], agora estou certo de que vamos fazê-lo - concluiu.