Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Lúcia Murat retrata fratura social do Brasil em filme

Segunda, 28 de Março de 2005 às 12:59, por: CdB

A cineasta Lúcia Murat inspirou-se no seu passado de presa política para compor, ao lado de Paulo Lins (o autor do livro "Cidade de Deus"), o roteiro de seu novo filme, Quase Dois Irmãos.

Nem por isso, no entanto, trata-se de uma obra 100% autobiográfica, como ela esclareceu em entrevista à Reuters, por telefone. Até porque ela nunca esteve presa em Ilha Grande (RJ), cenário de seu filme, que estréia na sexta-feira, com 30 cópias distribuídas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

- Ilha Grande era um presídio reservado aos homens. Eu só estive lá para visitar o meu ex-companheiro - disse Murat, que foi prisioneira política em Bangu nos anos 1970.

Ainda assim, ela tem muito em comum com o personagem Miguel (interpretado por Caco Ciocler), jovem de classe média, filho de um compositor, que cresceu junto do filho da empregada, Jorge (Flávio Bauraqui).

- Meu pai era médico e tinha uma preocupação social enorme, atendia muitas vezes de graça. Tive a experiência de uma geração de formação mais progressista na infância. Não foi à toa que nos unimos na resistência à ditadura - analisou.

Tendo vivido diretamente o período da luta armada dos anos 1970, a diretora procurava um parceiro para desenvolver o outro lado que pretendia explorar na história, o das comunidades do morro dominadas pelo tráfico. E encontrou Paulo Lins por mero acaso.

Já desenvolvendo o projeto deste filme, entre 1998 e 1999, ela conheceu o escritor, que acabara de publicar Cidade de Deus, numa conferência sobre violência e cultura, no Rio Grande do Sul.

Depois do encontro, ela leu o livro, mas foi filmar outro projeto, o filme Brava Gente Brasileira. Só depois vingou a parceria com Lins para escrever este roteiro, que resultou num filme co-produzido pela França e o Chile.

Na França, Quase Dois Irmãos venceu um concurso de roteiro do Fond Sud, uma das grandes fontes de financiamento para projetos independentes de outros países. No exterior, vem colecionando prêmios em festivais, como Havana e Mar del Plata.

Quase Dois Irmãos tem uma veia quase documental nos diálogos, muitas vezes criados no próprio set pelos jovens atores de grupos como Nós do Morro e Nós do Cinema, formados a partir de comunidades de morros no Rio.

- A gente explicava para eles qual era a situação da cena e eles iam inventavam as frases e a postura corporal, a partir do próprio repertório deles. A partir disso, a gente só organizava um pouco mais - contou a diretora.

Uma outra experiência real que Murat introduziu na história foi a dos relatos de diversas adolescentes que entrevistou. As meninas subiam o morro e tinham relacionamentos com traficantes, embora morassem fora das favelas - e estão representadas na personagem Juliana (Maria Flor), filha do protagonista Miguel.

A partir dessas entrevistas, Murat concluiu:

- Essa atração delas pelos traficantes não é uma coisa de menina drogada e sim uma possibilidade de transgressão. Numa sociedade em que tudo é extremamente descartável, o morro exerce esse fascínio para elas.

O balanço que a história faz da luta armada, da degeneração social, das desigualdades sociais e raciais pode até ser considerado amargo.

Murat justifica:

- Com tudo o que a gente vive hoje, não dá para pensar num final romântico. Mesmo assim, eu continuo pensando na utopia, isso é inerente à minha geração. Mas não quero dar uma resposta pronta à platéia.

Pensando no público e na proximidade temática de seu filme com Cidade de Deus, a diretora comparou:

- Meu filme não é tão aberto quanto Cidade de Deus, é outra proposta. Inclusive, temos um lançamento bem menor.

A diretora também acredita que o impasse social vivido pelo Brasil não é uma situação exclusiva do país.

- Vivemos uma situação muito barra-pesada e não só aqui, com o crescimento

Tags:
Edições digital e impressa