Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Lubitz : “depois da casa arrombada, cadeado à porta”

Por José Inácio Werneck - Só depois de Andreas Lubitz voar propositadamente esta semana com um avião de passageiros numa rota de colisão com os Alpes, matando 149 pessoas inocentes, as empresas aéreas europeias resolveram tomar a simples precaução de nunca permitir que apenas uma pessoa fique na cabine de comando.

Sábado, 28 de Março de 2015 às 12:32, por: CdB
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O suicídio do copiloto da Germanwings só foi possível por uma lei decorrente do 11 de setembro
Só depois de Andreas Lubitz voar propositadamente esta semana com um avião de passageiros numa rota de colisão com os Alpes, matando 149 pessoas inocentes, as empresas aéreas europeias resolveram tomar a simples precaução de nunca permitir que apenas uma pessoa fique na cabine de comando. Uma outra tragédia, pior ainda, aconteceu em 31 de outubro de 1999,  ao largo de Massachusetts, quando um piloto  da Egypt Air jogou seu avião intencionalmente no Oceano Atlântico, enquanto sua voz deixava a seguinte e repetida frase no sistema de gravação a bordo: “ Deus é grande”. 217 pessoas morreram. Em 2013, no dia 29 de novembro, o piloto da Mozambique Airlines que se dirigia a Luanda, em Angola, jogou o avião ao chão, de propósito, quando sobrevoava a Namíbia, matando a si mesmo e outras 32 pessoas. Em todos estes três casos, o perpetrador aproveitou-se do momento em que seu companheiro na cabine de comando a abandonou por momentos para ir ao banheiro. Talvez as empresas aéreas europeias não tenham dado importância às tragédias, por elas terem ocorrido fora de seu continente. Provavelmente pensaram que, na civilizada Europa, com a seriedade exigida para que um piloto tire o seu “brevê”, tais coisas não poderiam acontecer. Para piorar a imprevidência com que as empresas aéreas europeias agiam (moro nos Estados Unidos e não sei qual é o procedimento no Brasil), basta lembrar que, depois do 11 de Setembro em Nova York, as cabines de comando transformaram-se em verdadeiras fortalezas. Se uma pessoa se encontra sozinha em uma cabine de comando e resolve  trancá-la, não há força que consiga destrancá-la pelo lado de fora. No caso da Germanwings, o piloto, trancado do lado de fora, utilizou até um machado escondido em um compartimento especial, para casos de emergência, sem sucesso. Para tornar a situação pior, as leis de privacidade na Alemanha impediram que médicos, que sabiam que Andreas Lubitz não tinha condições para voar, se comunicassem com a Lufthansa, sua empregadora. Estas mesmas leis de privacidade até o momento impedem divulgar ao público  se a síndrome de que Lubitz padecia era psicológica, psicossomática ou física, como saber que estava a caminho da cegueira ou tinha tumor no cérebro. Agora a gigantesca empresa aérea alemã terá que se defender em ações judiciais que poderão lhe custar centenas de milhões de dólares em indenizações às famílias das vítimas. O velho ditado português “depois da casa arrombada, cadeado à porta” aplica-se duas vezes nesta tragédia ocorrida nos Alpes. Primeiro, depois do Onze de Setembro, quando as cabinas de voo foram invadidas por terroristas, os fabricantes de aviões passaram a tornar seus “cockpits” inexpugnáveis. Mas às empresas aéreas europeias não ocorreu que, uma vez inexpugnáveis, os “cockpits”  poderiam se transformar numa arma mortífera se uma pessoa se encontrasse lá dentro sózinha e este indivíduo fosse  um louco, um doente ou um terrorista. Ou as três coisas. José Inácio Werneckjornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive. Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
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