Rio de Janeiro, 06 de Outubro de 2026

Los hermanos

Sexta, 29 de Julho de 2011 às 10:37, por: CdB

Ofutebol imita a vida e a política. Final de semana passado, o final da CopaAmérica foi entre Uruguai e Paraguai, Brasil e Argentina solenementedesbancados do trono. Os gigantes de 200 e 40 milhões de habitantes sãofragorosamente derrotados pelos anões com populações entre 3 e 5 milhões. Oalívio maior para os brasileiros foi porque os argentinos, eternos rivais,perderam primeiro. Assim a dor do insucesso foi menor e a flauta, lado a lado,acabou diminuída ou inexistente.

(Nosul – leia-se Rio Grande do Sul -, à parte o hábito do chimarrão e do mate, acultura comum da milonga e do chamamé, a disputa com os argentinos,especialmente, e uruguaios é ainda mais acirrada que no resto do Brasil, porconta da vizinhança e das refregas na Libertadores de futebol. Boca e River,mais, Nacional e Penharol, menos, são inimigos mortais e permanentes de Grêmioe Internacional.)

Sinaisdos tempos? Davi contra Golias? Ou novos tempos? Os pequenos viraram grandes oua integração diminui distâncias e diferenças?

Estivehá pouco em Assunção, Paraguai, no Mercosul Social e Participativo, em nome daSecretaria Geral da Presidência da República. Os debates foram amplos, numadezena de oficinas sobre os temas mais variados- soberania e segurançaalimentar, economia popular e solidária, pensamento latino-americano, terra ereforma agrária, migrações, educação popular, tecnologias sociais –. Osentimento das centenas de participantes dos países do Mercosul é de integração,de busca de caminhos comuns, de construir políticas públicas aproveitando asexperiências uns dos outros, respeitadas as diferenças culturais, econômicas,sociais.

Hátambém nuvens de preocupação no horizonte. Mancheteia o jornal Valor Econômico (25.07.11):"Economia uruguaia cresce, mas país teme Brasildependência.” E o presidente doUruguai, Pepe Mujica, fez um alerta na Cúpula do Mercosul: "Devemos lutar paraque a burguesia paulista assuma a responsabilidade de gerar empresas aliadas, enão colonizadas, em toda a América do Sul.”

Diza Secretária Geral da UNASUL (União das Nações Sul-americanas), a colombianaMaría Emma Mejía: "Prevê-se que o Brasil será a quarta economia do mundo em2014. É claro que o país tem um peso. Mas temos que trabalhar juntos, sequeremos ser potência. O Brasil sozinho não é a mesma coisa que o Brasil com 12juntos. Eu disse para o ministro Patriota (das Relações Exteriores do Brasil):vocês por si só são uma potência. Ele respondeu: uma potência só não pode fazernada; faz mais ligada a outras” (Folha de São Paulo, 26.07.11).

Felizmente,o portunhol, ou mesmo o espanhol no Brasil e o português na América espanhola,está cada vez mais presente: no futebol, na política, na economia, na cultura.Em tempos em que a intolerância e a xenofobia ganham espaço no mundo,especialmente na Europa e nos Estados Unidos, em meio a uma crise econômicaque, feliz e ineditamente, não vem batendo do mesmo jeito nos países do sul.

Nãose pode ainda dizer de uma aurora que esteja despontando no sul ou que,definitivamente, o novo esteja acontecendo por estas plagas. Mas há algoanimador, e não são ‘las brujas’, como diz o ditado. Talvez o futebol ensine ourelembre que os pequenos podem/devem ter vez, voz e espaço, que muitas vezesseu toque de bola, seu espírito de equipe são capazes de vencer a truculênciaarrogante ou a inexperiência. Aliás, Paulo Vinícius Coelho escreveu, antes dafinal entre Uruguai e Paraguai, e eu assino em baixo: "Soy celeste. - DiegoForlan disse ao diário Olé!: ‘Jamais pensei que amizade pudesse ser uma palavratão forte em um time de futebol’. Ter um time unido nem sempre faz diferença.No caso do Uruguai, faz. Nesta semana, os argentinos repetiram que ‘osuruguaios sentem mais a camiseta, têm mais paixão por jogar pela Celeste’.Inegável que o espírito de grupo do Uruguai de hoje faz diferença.”

OUruguai foi campeão. Talvez sinal dos tempos. Tempos de integração, tempos derecuperar o espírito integracionista de Simon Bolívar, de San Martin. E desonhar com a pátria latino-americana de Che ou a Pátria Grande de PedroCasaldáliga.

Emvinte e nove de julho de dois mil e onze

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