O Festival de Cinema de Locarno é chamado de "o menor de todos os grandes festivais ou de o maior dos pequenos festivais". Na classificação mundial ainda continua considerado como ocupando o quarto lugar, depois de Cannes, Veneza e Berlim.
Não é um festival de badalação, de paquera ou de mundanidades. Locarno, durante o festival, tem temperaturas de 34 graus, o pessoal se desveste ao máximo, coloca sandálias e se esconde do sol dentro dos cinemas ou dos pavilhões com capacidade para 3500 pessoas, transformados em cinemas. Quem se cansa de ver filmes vai para a piscina à beira do lago, tudo sem ostentação. O que interessa são os filmes. A maioria dos espectadores é formada de suíços curiosos do mundo próximo ou distante, com suas sociedades sem a riqueza local. Mas chegam também muitos europeus dos países vizinhos, todos maníacos por cinema. Querem ver os filmes jamais exibidos nos cinemas padronizados das distribuidoras multinacionais.
O público de Locarno quer filmes diferentes. E é um público exigente. Ao terminar a projeção vem a sentença sem apelação: se o filme é bom estouram os aplausos de 7 mil mãos; se é mais ou menos, há uma ligeira vaga de aplausos de conveniência, de gentileza; se é ruim, coitado do cineasta e atores, que sempre aparecem no final para responderem perguntas do público. Coitado, porque vem vaia e assovios.
De noite é diferente. Na enorme praça da cidade, de estilo lombardo - a Piazza Grande - está armado um telão de quase 300 metros quadrados. Bem distante quase na outra extremidade da praça, dentro de um container, está o projetor de alta qualidade, responsável pelas imagens de grande nitidez. E ocupando todo o espaço vazio da praça, nove mil cadeiras de plástico que, por volta das 20 horas começam a ser ocupadas pelo público.
Embora tudo pareça previsto, uma coisa não é certa: é o tempo. No fim da tarde, é normal se ver pessoas questionando o céu. Não se trata de uma adoração ou de um novo culto. Querem saber se haverá ou não chuva. Se o céu permanece azul, apesar do calor de verão, o espetáculo está garantido. Senão, não haverá o charme da praça, vai ser preciso se ver o filme num pavilhão com metade dos lugares.
Nestes meus quase vinte anos de Festival de Locarno vivi enormes emoções, nessa Piazza Grande.
Talvez a maior delas tenha sido a proporcionada pelo filme Cinema Paradiso, do italiano Tornatore, um filme de homenagem ao cinema. Cinema Paradiso é a história de um cinema, do responsável pela projeção do filme e de um menino, que se tornaria cineasta. É um filme capaz de fazer chorar ou, pelo menos, de deixar a garganta apertada.
Na noite em que passou Cinema Paradiso na Piazza Grande, o céu era azul estrelado e a temperatura vizinha dos 30 graus. Todas as cadeiras estavam tomadas e havia pessoas em pé em torno da praça. O filme tinha recebido o Prêmio Especial do Júri em Cannes, havia uma curiosidade normal.
Assistir esse filme diluído dentro daquele grande público me permitiu presenciar alguma coisa nunca vista, em termos de comportamento coletivo. Quando o filme terminou, imagino que 80% das oito mil e quinhentas pessoas sentadas diante do telão choravam ou tinham chorado.
Ninguém se mexeu ao começaram a desfilar no telão os nomes dos atores participantes, com o fundo musical de Ennio Morricone. De repente, a música acabou, as luzes da praça se acenderam e naquele público de 8 500 pessoas não havia nenhum barulho. As pessoas escondiam o olhar para não mostrarem as lágrimas, espectadores secavam discretamente os olhos com seus lenços ou simplesmente com os dedos.
Era o milagre do cinema, uma multidão em silêncio absoluto durante longos segundos.
A outra vez, foi com o filme El Sud, do argentino Solanas, esse cineasta extraordinário, contando aquela escura Argentina dos militares, com a música dolorida do bandaneon de Astor Piazzola. E eu chorava. Normal, quem não chora com um
Locarno: Quando a multidão chora em silêncio
Segunda, 07 de Agosto de 2006 às 11:22, por: CdB