Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2026

Locarno, um cinema diferente

Dentro de duas semanas, exatamente a partir do dia 2 de agosto e durante dez dias, começa o Festival que nos ensina uma maneira diferente de ver cinema. (Leia Mais)

Domingo, 30 de Julho de 2006 às 08:58, por: CdB

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Dentro de duas semanas, exatamente a partir do dia 2 de agosto e durante dez dias, começa o Festival que nos ensina uma maneira diferente de ver cinema. Filmes que darão vontade de ver para quem está longe, mas que talvez nunca passem no Brasil ou se passarem será só na Mostra de São Paulo, do Leon Cakoff.

Estamos falando da quinquagésim nona edição do Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça italiana, de 2 ao 12 de agosto, cuja particularidade é a de fugir à regra das projeções de filmes padronizados, como poderíamos adaptar para a linguagem do cinema, a expressão corrente do "pensamento único", que vigora em tantos setores da política e cultura.

Por que é um cinema diferente? Porque o Festival de Locarno constitui uma amostragem do que de melhor está sendo feito no mundo de hoje, em termos de cinema independente, inclusive no cinema independente norte-americano. Nestes momentos de tensão mundial, quando o Irã é olhado com desconfiança por querer fabricar bomba atômica e por apoiar o movimento Hesbollah e o islamismo integrista, que tal ver um filme iraniano?

A arte caminha sempre na frente, seja da política e da realidade social. Quando um cineasta iraniano nos mostra um filme, é como se nos permitisse entrar no seu país e nos permitisse conhecer aspectos humanos não contados nos noticiários ou comentários políticos. Quem já conhece o cinema iraniano de Abbas Kiarostami ou de Jafar Panahi entende bem isso.

E quando se faz uma entrevista com um diretor iraniano, descobre-se muita coisa não existente na imprensa diária - por exemplo, no Irã, onde não custa caro ir ao cinema e onde se fazem muitos filmes por ano, não passa nenhum filme norte-americano. Os dois países não mantêm relações diplomáticas. Bom ou ruim? Há um bom aspecto - sem esse tipo de invasão cinematográfica, o Irã desenvolveu sua indústria de cinema e vive ganhando prêmios nos grandes festivais.

Em contrapartida, talvez o leitor não saiba - não passa nenhum filme iraniano nos EUA. E até um dos maiores cineastas do Terceiro Mundo, Abbas Kiarostami, já premiado em Cannes, Veneza e Locarno, foi proibido de entrar nos EUA, onde iria participar faz alguns anos do Festival de Nova Iorque.

E se falei do cinema iraniano, diferente do que costumamos ver, precisaria também falar do cinema israelense, por uma questão de equilíbrio de informação, já que Irã e Israel não se beijam. Ora, o cinema independente israelense tem mostrado excelentes análises da problemática israelo-palestina, principalmente com o cineasta Amos Gitai, mostrando um franco debate. Um dos grandes sucessos aqui na Europa, foi o filme israelense Vem, Viva e Volte, que mostra o cotidiano de uma família israelense socialista e atéia, abordando com maestria os preconceitos gerados geralmente pela religião, para mostrar ser possível se superar as restrições que desunem os homens e os levam à guerra, na construção de um mundo fraterno.

Esses dois filmes não começaram carreira em Locarno, mas o cinema israelense aparece sempre em Locarno, pois sendo um festival de cinema alternativo ao pensamento único permite essas descobertas. E ao se ver filmes de países inimigos, descobre-se que no mundo da arte é sempre possível se evitar a guerra e o conflito, donde a crença de que a paz e o entendimento entre culturas diversas é possível.

Mas não é hora ainda de contar tudo. É ainda preciso dizer que, em Locarno, haverá este ano três filmes brasileiros - um na competição da mostra "Cineastas do Presente", outro na mostra "A propósito de Cinema" e o terceiro, na mostra Play Forward, um curta metragem de Joel Pizzini.

Quais são esses filmes ? Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato, um filme ainda inédito, rodado em vídeo em 20 cidades latinoamericanas diferentes. O outro é Person, de Marina Person, uma estréia internacional desse filme já mostrado no Brasil. O curta de Joel Pizzini é Viajando por quatro estações.

E só

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