Duas declarações feitas, uma pelo novo diretor do Festival Internacional de Cinema de Locarno, Frédéric Maire, reforçada, mais tarde, pelo brasileiro Paulo Roberto de Carvalho, diretor do Festival Latino-americano de Tubingen, na Alemanha, e membro da equipe de seleção de filmes do Festival de Locarno, provocarão, sem dúvida, polêmica no mundo do cinema brasileiro.
Frédéric Maire afirmou, ao anunciar os filmes selecionados para a competição internacional de Locarno, ter visto muitos filmes brasileiros, mas que nenhum deles correspondia à exigências do Festival, todos com formato de filmes para a televisão. Essa crítica não é nova. Embora o ex-diretor Marco Muller tivesse selecionado Dois Córregos de Carlos Reichenbach, para competição, faz alguns anos, diversos críticos acusaram o filme de ter uma estrutura de telenovela, razão pela qual não teria levantado nenhum prêmio na competição.
Desta vez, além das restrições do diretor do Festival, que trouve para Locarno filmes e chilenos, foi o principal encarregado da seleção brasileira quem estigmatizou as produções brasileiras. Evidentemente, a equipe de seleção de Locarno pode estar enganada com seus métodos de seleção. Em todo caso, essa equipe não é infalível, visto um filme nulo selecionado para a competição internacional - o filme português Body Rice, de Hugo Vieira da Silva.
Porém, seria interessante se discutir a questão, que, resumida, é mais ou menos a seguinte: embora nos países vizinhos, como Argentina e Chile floresça um bom cinema independente criador de filmes de baixo custo, revelador de uma nova geração de bons cineastas, o Brasil vive uma crise de criatividade. A causa ? Os cineastas, atraídos pelas produções destinadas à televisão com publico de milhões de espectadores assegurados, estão dopados e perderam o interêsse pelos filmes originais e criativos, fora do formato batido das telenovelas. Assim, depois da fase sem cinema, da era Collor, o cinema brasileiro, dopado pela televisão, está sendo desclassificado nas grandes provas internacionais, como os ciclistas e atletas dopados da Volta da França ou das Olimpíadas. A televisão, já responsabilizada pelo abaixamento do nível cultural de suas produções para ganhar audiência e por alimentar os programas infanto-juvenis com enlatados americanos ou japoneses impregnados de violência, estaria também impedindo o surgimento de novos bons cineastas.
Paulo Roberto de Carvalho não deixa dúvidas - "existe no Brasil uma presença forte de grandes produções, com milhões de espectadores, que são filmes com formato e atores televisivos, que funcionam muito bem dentro do Brasil, mas fora do Brasil não funciona nem nos mercados e nem nos festivais. Vimos, este ano, toda produção brasileira, desde as grandes produções aos independentes e só escolhemos documentários e ensaios. Foi o que julgamos mais forte. Havia apenas dois filmes de jovens cineastas com possibilidade de entrar na competição, mas que acabaram ficando de fora. Os outros filmes apesar de boas produções e atores conhecidos não tinham o perfil do festival, enquanto na Argentina havia cinco filmes. No Brasil, há uma presença forte da televisão voltada para filmes destinadas ao público brasileiro,