A projeção do filme "Miami Vice", de Michael Mann, (o mesmo da série de televisão dos anos 80), num telão de quase 300 m², assinala nesta quarta (2.8), a abertura do Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça. O filme, que estreou na última sexta nos EUA e está programado para estrear no dia 25 no Brasil, tem assim sua estréia internacional em Locarno.
O Festival de Locarno, lugar privilegiado para a revelação de novos valores do cinema independente de todo o mundo, ainda é considerado o quarto colocado no ranking dos festivais (atrás de Cannes, Veneza e Berlim) e é um dos mais antigos, com seus 59 anos de existência.
O sucesso de Locarno decorre de uma boa mistura de filmes desconhecidos com filmes para o grande público. Enquanto os filmes de novos diretores de todo o mundo passam durante o dia, principalmente num pavilhão cinema de 3.500 lugares, a noite é em grande parte reservada para a projeção de filmes de diretores já conhecidos, no grande telão ao ar livre, montado na Piazza Grande, de estilo lombardo, ocupada por cerca de 9.000 cadeiras de plástico.
A edição deste ano apresenta uma retrospectiva do diretor finlandês Aki Kaurismäki e homenageia, com o Leopardo de Ouro, o cineasta russo Aleksandr Sokurov ("Arca Russa").
Brasileiros
Embora nenhum filme brasileiro esteja entre os 21 filmes da competição internacional, a presença brasileira está assegurada na competição da mostra paralela, Cineastas do Presente, com "Acidente", de Cao Guimarães e Pablo e Pablo Lobato, filme inédito com estréia mundial aqui.
A cineasta Marina Person teve seu documentário "Person" selecionado para a mostra A Propósito de Cinema, e Joel Pizzini mostrará seu curta
"Travelling as Four Gares".
O festival deste ano tem novo diretor, Frederic Maire, depois dos nove anos de Marco Muller, atualmente diretor da Mostra de Veneza, e dos cinco anos de Irene Bignardi, crítica de cinema do jornal italiano "La Repubblica".
Frédéric Maire, jornalista ligado em cinema e que colaborava com o festival, conta ter ficado decepcionado com os filmes brasileiros apresentados para a seleção internacional: "Existe uma produção enorme mas padronizada, próxima da linguagem da televisão, o tipo de filme que não tem lugar em Locarno. Mas estamos contentes com a presença do filme "Acidente", de Cao Guimarães, na mostra Cineastas do Presente, pois é um filme dotado de uma poesia extraordinária sobre a realidade, o mundo das favelas e da miséria. Um filme de grande sensibilidade".
Maire considera importantes os filmes latino-americanos. "A América Latina está bem presente em Locarno, temos um filme chileno, argentino e cubano. O filme chileno "Rábia", de Oscar Cárdenas, também nos Cineastas do Presente, é uma bela e alegre realização sobre a dificuldade de se encontrar um emprego; o filme "Água", da argentina Veronica Chen, seu segundo longa, é de uma grande beleza sobre a água, sobre a competição, sobre o desejo de vencer", diz o diretor.
"Falo espanhol, sou casado com uma espanhola e por tabela estou ligado ao mundo hispânico e ao seu gigantismo, por isso acho importante a presença do seu cinema, mas sem exclusividade porque também gosto muito do cinema asiático", afirma Maire.
No que se refere ao cinema de preocupações sociais, Maire é claro: "Um filme nunca deve ser engajado porque se torna propaganda, prefiro os filmes que colocam boas questões sobre problemas políticos fortes, esses filmes têm lugar aqui em Locarno".