Tempo perdido tentar obter uma entrevista com o cineasta finlandês, Aki Kaurismaki, detentor incontestável do cinema de humor negro com suas personagens de dramas desesperados e sua visão pessimista da existência. A entrevista coletiva pouca coisa acrescenta ao que se sabe do cineasta, pois conhecido como provocador, Kaurismaki se esforça para manter essa imagem, negando-se a responder diretamente às perguntas dos jornalistas.
"Minha cabeça é como um depósito de lixo. Há filmes que se encontram lá dentro e que são bons para esse tipo de paisagem", responde Kaurismaki à uma questão sobre seu novo filme Luzes do Fauburgo, dentro da mesma linha de seus filmes com personagens sem futuro, num contexto de desespero e sombrio.
Seu último filme mostra um jovem guarda-noturno perdido na noite finlandesa que acaba sendo presa de uma mulher manipuladora, qualificada pelo próprio Kaurismaki como a mulher mais cruel depois do filme Tudo sobre Eva, de Manckiewicz.
A história em si mesma é simples - a loira que o enfeitiça, manipulada por um cafetão, deseja simplesmente obter o código de entrada de uma bijuteria. Feito o roubo, o pobre e idiota guarda-noturno surge como o único culpado. Simplório na sua fidelidade, ela não acusa a infiel e vai para a prisão e sua tentativa de reinserção fracassa por uma intervenção do protetor da loira manipuladora. Nas mãos de um cineasta normal, o filme seria um dramalhão, ainda mais por terminar com um tango de Carlo Gardel. Mas Kaurismaki transforma essa história num filme sombrio e sem esperanças, mostrando a solidão do guarda-noturno num mundo de violências.
Essa a visão e a maneira de filmar de Kaurismaki. Luzes do Fauburgo, segundo o cineasta, é uma homenagem a Charlie Chaplin e seu filme Luzes da Cidade. Koistinen, o guarda-noturno ingênuo, solitário e sem reação é a versão de Kaurismaki do Carlito do cinema mudo.
Ex-estudante de jornalismo, Kaurismaki escrevia críticas de filmes antes de começar a colaborar com seu irmão Mika. Chegam mesmo a criar juntos uma empresa de produção, mas se desentendem e tanto um como o outro prosseguem carreiras separadas.
Falando de seus país, cujos bares e clima lhe teriam inspirado o caráter deprimente de seus filmes, Kaurismaki tem uma frase - "a Finlândia é a pátria do Nokia, mas nos meus filmes ainda não há celulares, não sou tão moderno. Mesmo os carros que aparecem já são velhos".
Aki Kaurismaki esteve em destaque no Festival de Locarno com uma retrospectiva de todos seus filmes, mais de 20, e a exibição de filmes por ele escolhidos. O Festival, em colaboração com o Cahiers du Cinema publicou também um livro sobre sua obra.
"Como se sente diante de toda essa homenagem ? lhe perguntou um crítico, ao que Kaur