| Sucesso de bilheteria na Alemanha, o público da Piazza Grande pôde ver, numa estréia internacional, A Vida dos Outros, primeiro longa-metragem do cineasta alemão Florian Henckel von Donnersmaark. O cinema alemão assim como o teatro tem um rigor e uma profundidade, vindos de um teatro, de uma literatura, sem se referir à filosofia, rigorosos. Seus filmes podem ser, por isso, pesados, intrincados e difíceis, porém, quando a receita é boa, se transformam em obras de extraordinária perfeição. É o caso de A vida dos Outros (Das Leben der Anderen). Se a comédia suíça das viúvas fez o público se levantar numa manifestação de alegria, a história alemã, inspirada no controle exercido sobre os intelectuais da ex- RDA, Alemanha comunista, pela polícia secreta, a Stasi, colou os espectadores nas cadeiras pela carga pesada de emoções e pelas cenas finais capazes de provocar um soluço ou um arrepio, mesmo no mais frio dos mortais. O que é esse primeiro filme de um jovem cineasta, de 33 anos, nascido em Colônia, Alemanha Ocidental na epoca do comunismo, feito com apenas dois milhões de euros, pela pequena empresa de produção Wiedemann & Berg, sem apoio dos distribuidores alemães ? Diante das filas nos cinemas alemães, poucos sabem que os próprios atores trabalharam sem esperança de serem pagos e que, por durar mais de duas horas, seu diretor temia ser obrigado a usar a tesoura e comprometer a estrutura do filme. Exceções surgem no mundo fechado do monopólio dos distribuidores de filmes - foi a Buena Vista Internacional quem aceitou a distribuição, sem cortes, e que, provavelmente, levará o filme ao Brasil. É a história de um escritor e de sua amiga atriz da RDA, em 1984, que embora lido no Ocidente não tinha ainda caído em desgraça, mas colocado sob escuta por microfones instalados em sua casa, e seguido por um ambicioso, frio e meticuloso capitão do serviço secreto, a pedido do próprio ministro da Cultura. Dreyman, o escritor, passa para a revista Der Spiegel, um texto sobre o elevado número de suicídios na Alemanha comunista, motivados pelo desespero, num país vigiado por mais de cem mil espiões de uniforme cinza, fora as denúncias de maridos, esposas, amigos que se vigiavam e entregavam relatórios periódicos à Stasi, confirmados, depois da queda do Muro de Berlim, pelos arquivos dessa polícia secreta digna do Processo de Kafka. Filme político-policial, inspirado em fatos reais, A Vida dos Outros conta que o desejo de liberdade expresso por intelectuais alemães da época, os acordes de piano de uma sonata de Beethoven puderam agir sobre um policial decepcionado com sua administração, a ponto de levá-lo a proteger o alvo de suas investigações, mesmo com prejuízos pessoais. Para escrever seu filme, von Donnersmarck, entrevistou vítimas da Stasi e antigos membros desse aparelho policial, que, nos anos 80, tinha se transformado num corpo independente dentro da Alemanha comunista. O clima é de um filme de espionagem, mas, ao mesmo tempo, transmite a certeza de que os regimes autoritários não conseguem ser infalíveis.
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