Rio de Janeiro, 02 de Abril de 2026

Locarno - filme lembra cineasta Luiz Person

Terça, 08 de Agosto de 2006 às 10:24, por: CdB

Considerado, nos anos 60, o mais paulista dos cineastas, cujo filme "São Paulo S.A." marcou época; crítico do cinema novo, por não acreditar (e teve razão) que a euforia do movimento "pelas reformas de base" levasse a uma mudança de regime, Luiz Sérgio Person conseguiu colocar nos cinemas, em pleno começo da ditadura militar, o mais violento filme contra a tortura e a repressão policial, "O Caso dos Irmãos Naves".

Trinta anos depois, sua filha, Marina Person, trouxe ao Festival Internacional de Locarno, o filme in memoriam do pai, inquieto, ousado, indomável e dinâmico cineasta que, na juventude, passara dois anos estudando cinema na Itália, mas que nunca participara de um festival europeu.

"Person", documentário longa-metragem é o resultado das pesquisas de uma filha em busca do pai, morto prematuramente num acidente de carro algumas semanas antes de completar 40 anos, em 1976, mas se transforma numa descoberta para a nova geração de uma figura irreverente, ousada, que os depoimento de seus importante contemporâneos retiram do esquecimento.

Exibido na mostra A propósito de cinema, criada pela nova direção do Festival para destacar novos diretores com obras dedicadas diretamente à discussão do cinema, o filme de Marina Person teve boa acolhida pelo público, em Locarno, o que irá ajudar na carreira comercial do documentário com próximo lançamento nos cinemas brasileiros. Marina Person foi convidada junto com sua produtora Sara Silveira, parceira de Carlos Reichenbach, dos Estúdios 19.

Como o filme foi selecionado para o Festival de Locarno?

Marina Person -
Mandamos uma cópia e ficamos contentes, pois documentário não é o tipo que filme que Locarno privilegie e, além disso, o tema é muito particular, pois trata de um cineasta dos anos 60, com a abordagem particular de uma filha querendo saber mais sobre o pai. Estou muito feliz, não só por trazer meu primeiro filme, como a obra de meu pai para um público totalmente diferente. É importante mostrar o filme para uma platéia que não conhece o Brasil, sem os pontos de referência de um espectador brasileiro que sabe do período da ditadura militar e conhece gente como Millor Fernandes, Jean Claude Bernadet, Raul Cortez, o Jorge Ben. Um público sem qualquer ligação com esses personagens, que se apega à história do cineasta.

Quando Person morreu você tinha sete anos. A busca do material sobre seu pai foi difícil?

Marina -
Encontrei muitas coisas que nem sabia existirem, por exemplo, o material sobre seu enterro, feito pela TV Cultura, que surgiu na conclusão do meu documentário. Foi o Amir Labaki, que está escrevendo a biografia de meu pai e é diretor do Festival Internacional de Documentários de São Paulo, quem me alertou, dizendo ter encontrado esse material. Outra coisa foi o material sobre o filme "SS contra a Jovem Guarda", que não chegou a ser feito, com roteiro de Jô Soares e do Jean-Claude Bernardet, que meu pai ia dirigir. Tenho aquelas imagens raríssimas do aniversário do Roberto Carlos. Pena não ter som, pois foi alguma coisa muito improvisada, já que estavam lá, além do Erasmo e da Wanderlea, da Jovem Guarda, Jorge Ben, Simonal, Jair Rodrigues e Elis Regina.

Como você reagiu ao coletar o material sobre seu pai e descobrir sua resistência à ditadura, como no caso do filme "O caso dos irmãos Naves"?

Marina -
Cresci durante a ditadura, a abertura veio quando eu começava minha adolescência. Mas na época em que meu pai fez o filme, 1967, a situação era muito mais difícil, de uma repressão violenta por parte dos militares. Fazer "Os Naves" foi um ato de extrema coragem, é incrível ter conseguido passar o filme pela censura, sem ter sido perseguido, com aquelas cenas duras de tortura.

E essa busca do pai, lhe trouxe muita emoção?

Marina -
Muita, na nossa família sempre foi muito difícil falar sobre o assunto sem sofrer e sentir dor. Até hoje, se sentarmos para conversar sobre i

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