Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Locarno - Filme israelense com ator palestino

Por Rui Martins - Momento mais atual para o filme não se poderia ter: o governo de Israel continua bombardeando a Faixa de Gaza, enquanto o movimento palestino Hamas ganha a guerra midiática e a ONU imita a Suíça, condenando tanto o Hamas por usar a população civil como escudo humano como Israel por causar vítimas civis ao destruir os túneis, protegidos por escudos humanos, de onde partem os mísseis do Hamas sem atingir alvos.

Sábado, 09 de Agosto de 2014 às 16:00, por: CdB
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Atriz israelense e ator palestino no filme israelense em Locarno
Momento mais atual para o filme não se poderia ter: o governo de Israel continua bombardeando a Faixa de Gaza, enquanto o movimento palestino Hamas ganha a guerra midiática e a ONU imita a Suíça, condenando tanto o Hamas por usar a população civil como escudo humano como Israel por causar vítimas civis ao destruir os túneis, protegidos por escudos humanos, de onde partem os mísseis do Hamas sem atingir alvos. É dentro desse contexto que foi exibido na Piazza Grande o filme israelense com roteiro e principal ator palestino, tendo por título Dancing Arabs. Esse é o mesmo título do livro bestseller de Sayed Kashua, árabe israelense fazendo parte dos 20% de árabes que vivem em Israel, mesmo porque Kashua dirige um programa cômico na televisão israelense com alto Ibope em termos de espectadores. O título do livro era uma referência às danças de regozijo quando caiu um míssel em Israel, no início da guerra louca de Bush contra o Iraque. Situação igual também ocorrera depois do ataque dos dois aviões sequestrados e transformados em bombas contra o World Trade Center, de Nova Iorque, onde morreram três mil vítimas civis. Como se percebe é preciso muita ousadia para se lançar na adaptação de um livro de autor árabe palestino, no qual se fala de paz e entendimento entre palestinos e israelenses, quando o ódio é agora moeda corrente entre essas duas populações e mesmo se exportou para todo o mundo. Não deve haver tema mais controvertido e gerador de discórdias, divergências e mesmo vias de fato, quando Israel continua criando novas colônias nos territórios ocupados a ponto de inviabilizar a criação de dois Estados e quando o Hamas rejeita qualquer possibilidade de aceitar a existência de Israel. Ora, o filme Dancing Arabs entra nesse terreno minado e mostra a intolerância de ambos os lados, com a personagem de um jovem palestino brilhante em matemática no secundário, pelo que foi aceito a frequentar um prestigioso colégio interno israelense, mesmo tendo um pai considerado terrorista por ter participado das manifestações que precederam a primeira Intifada, ainda na época de Yasser Arafat. Eyad tem duas experiências importantes nessa sua nova vida, depois de ter deixado os pais e ido viver no internato - se apaixona por uma colega israelense, Naomi, e tem como melhor amigo um jovem israelense, Jonathan, sofrendo de distrofia muscular, que vive numa cadeira de rodas e logo entra numa fase terminal sem movimentos. Quando Naomi tenta sondar sua mãe sobre qual seria sua reação caso namorasse um palestino, ouve a seguinte resposta - "preferiria que você fosse lésbica ou tivesse um câncer". Do lado da família de Eyad, a reação não seria diferente. Por fim, a própria Naomi rompe o namoro para poder ter uma vida normal dentro da sociedade israelense, mesmo se Eyad tivesse abandonado o colégio para protegê-la. Em todo caso, Eyad tinha percebido a impossibilidade de se prosseguir com o namoro, evitando-se assim um repetir de Romeu e Julieta. Logo depois, Jonathan morre e a opção tomada por Eyad, proposta pelo autor Sayed Kashua, é a de renunciar à sua nacionalidade palestina para assumir a nacionalidade israelense de seu amigo Johathan, com o qual tinha semelhança física possibilitando uma simples troca dos documentos de identidade. Para não haver dúvidas futuras, a mãe de Jonathan aceita que seu filho seja enterrado segundo o rito muçulmano com o nome de Eyade que, por sua vez, assume a nacionalidade israelense do amigo. Esse o ponto fraco do filme, mesmo se seu realizador Eran Riklis, é autor de outros filmes sobre as relações entre israelenses e palestinos - a opção de trocar a nacionalidade palestina pela israelense ou a perda de identidade palestina é inaceitável na busca da paz entre israelenses e palestinos. Porém, Eran Ricklis deixa claro ter seguido o livro original. Mas essa solução de perda da identidade talvez tenha sido ironia do autor, mostrando qual é, no momento, a única solução possível de paz, no contexto atual entre israelenses e palestinos. Rui Maartins, de Locarno, convidado pelo Festival de Cinema.
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