Único filme brasileiro em competição no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na mostra Cineastas do Presente, Acidente é apresentado como um poema ou ensaio cinematográfico, captando a realidade fugaz de vinte cidades interioranas mineiras.
A boa repercussão desse filme autoral, mais elaborado, entre os críticos presentes na projeção a eles reservada, constitui um sinal otimista, embora seja difícil qualquer antecipação.
Cao Guimarães já esteve em Locarno, há dois anos, com seu filme Rua de Mão Dupla.
O filme Acidente é precedido, nas apresentações em Locarno, pelo curta-metragem de Sérgio Borges, Silêncio. Foi também exibido em Locarno, fora de competição, na mostra A propósito de Cinema, o curta-metragem de Joel Pizzini, Viajando por quatro estações, flagrantes também poéticos de cenas colhidas na passagem de trens por estações, valorizadas pelo som onomatopaico de um saxofone, imitando o barulho da locomotiva.
ENTREVISTA COM CAO GUIMARÃES
E PABLO LOBATO
Pergunta - como poderia ser definido Acidente ? em termos de pintura seria, a abstrata; em termos de literatura, seria um poema ?
Cao Guimarães - Não, acho que a relação do filme com as outras artes, é plural. Tanto a pintura figurativa como a abstrata, tanto a prosa como a poesia estão presentes em Acidente. É verdade que o filme tem uma estrutura de um poema, feito de nomes de cidades, mas a relação que tivemos com o cotidiano dessas cidades foi bastantes prosáica. Foi uma tentativa de buscar no cotidiano das cidades uma identidade camuflada ou micro, nós não buscávamos expressar o que era esta ou aquela cidade. Nós deixamos que algum acontecimento das cidades nos impressionasse e se imprimisse na película ou vídeo. Era mo corpo do filme quase uma crônica, esse gênero literário com um tradição bastante forte no Brasil, embora o poema seja a estrutura do filme.
Pergunta - Então, os nomes das cidades colocados na tela são as estrofes do poema ?
Pablo Lobato - O poema fun