Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 2026

Locarno - acenderam-se as luzes

Acostumado a ir todos os anos ao Festival de Cinema de Locarno, colunista transmite um pouco de suas lembranças ao terminarem os filmes e acenderem-se as luzes. A primeira vez que fui a Locarno foi em 1981, pela Rádio Suíça Internacional. Havia alguns filmes brasileiros por lá, o pessoal curtia muito tudo quanto lembrasse o cinema novo, e fui fazer entrevistas.

Domingo, 14 de Agosto de 2011 às 15:12, por: CdB
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Acostumado a ir todos os anos ao Festival de Cinema de Locarno, colunista transmite um pouco de suas lembranças ao terminarem os filmes e acenderem-se as luzes. A primeira vez que fui a Locarno foi em 1981, pela Rádio Suíça Internacional. Havia alguns filmes brasileiros por lá, o pessoal curtia muito tudo quanto lembrasse o cinema novo, e fui fazer entrevistas. O Festival de Cinema de Locarno, embora já tivesse quase 40 anos, era bem menor, as salas de projeção dos filmes em competição eram grandes barracas de lona, como de circo, e o número de espectadores muito menor. Já havia as projeções num telão da Piazza Grande, muito menos ambicioso que o atual, e o controle contra os penetras, era reduzido. A praça era apenas cercada por cordas. Em 1988, comecei a ir todos os anos e, pouco a pouco, Locarno foi entrando na minha vida, se tornando um ponto de encontro obrigatório. Naquela época, destacava os filmes mais importantes para o Caderno 2 do Estadão e batia meus artigos numa barulhenta sala de imprensa ou num quarto de hotel barato, na minha Olivetti portátil. Depois tinha de sair correndo para mandar por fax antes que fechasse o correio. Nessa época, eu pagava o hotel, almoçava sanduíches junto dos pavilhões de projeção que já tinham substituído as barracas de lona. No começo dos anos 90, comecei a ser convidado pelo Festival, continuei escrevendo para o Estadão, falava dos filmes pela Excelsior, que precedeu a CBN, e, em alguns anos, quando havia cineastas brasileiros, enviava artigos também para O Globo. Aprendi muito sobre os países do terceiro mundo vendo os filmes feitos por seus cineastas. Filmes que nunca passariam em nenhum outro lugar. Durante alguns anos, via os filmes no telão da Piazza Grande e, estar ali no meio daquela multidão sentada e silenciosa, era sempre uma experiência profunda.Como foi a de ver ali (e já contei isso numa coluna), o filme Sud,de Solanas, ou CinemaParadiso, de Giuseppe Tornatore, filmes nos quais chorei, mas não sozinho, era toda a praça que soluçava e enxugava os olhos ou com as mãos ou com lenços. Alguns com vergonha, como eu que, ao soluçar e sentir virem lágrimas nos olhos, olhei discretamente para um holandês, ao lado, sentado como outras seis mil pessoas ao ar livre, e me tranquilizei – ele também chorava. Hoje,o Festival, considerado o quarto em importância, emprega centenas de pessoas, exibe mais de duzentos filmes em diversos cinemas, os pouco hotéis ficam lotados, e nós jornalistas quase não vamos mais à Piazza Grande, pois temos projeções antecipadas de um dia, num cinema, praticamente reservado para a imprensa. Há também um lado familiar nessa história de Locarno, pois minhas duas últimas filhas sempre foram lá, desde bebês. Hanna, minha companheira que se tornou minha esposa, precisou deixar de ir ver os filmes comigo para ficar na piscina ou à beira do lago com as meninas. Nestes últimos anos estamos retornando aos anos 80, as meninas cresceram, e, enfim, Hanna voltou a frequentar a Piazza Grande e pode ver outros filmes durante o dia, enquanto corro dos filmes para as entrevistas e a reencontro no fim das projeções. Agora somos, quatro, ou mesmo cinco quando um namorado está também emLocarno, para discutir os filmes vistos, sempre num clima de democracia. E os filmes continuam nos acrescentando descobertas, que nos ajudam a interpretar mais tarde os noticiários vindos dos países, já nossos conhecidos. Etnologia, política, religião, moral, costumes, comportamentos, histórias alegres e tristes de amor se sucedem, nos possuem enquanto projetadas, nos emocionam, nos entusiasmam ou nos revoltam. Dez dias, sem saber o que se passa no resto do mundo. Este ano, muitos filmes que me enfeitiçaram acabaram ficando sem um testemunho escrito. Falta de tempo para escrever sobre tantos vistos, quase 40. Uma pena, porque folheando agora o catálogo, me lembro de tantas emoções, idéias, reações provocadas no decorrer das projeções, cujas histórias versavam sobre tantos temas diversos, que gostaria de poder debater aqui com vocês todos. Fico devendo. Publicado originalmente no Direto da Redação. PS. No Caderno Arte e Cultura, comentários sobre filmes. Rui Martins, jornalista e escritor.
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