Rio de Janeiro, 04 de Novembro de 2026

Lobato previu presidente negro nos Estados Unidos

Terça, 08 de Janeiro de 2008 às 11:16, por: CdB

Ainda é muito cedo para se falar em presidente negro nos EUA. O processo de escolha dos candidatos mal começou. Porém, essa hipótese hoje provável traz à atualidade o escritor brasileiro de tantas infâncias – o Monteiro Lobato, uma espécie de Mark Twain paulista.

Escritor, mas igualmente empresário, Monteiro Lobato chegou nos EUA, em 1926, como adido comercial da embaixada brasileira e com um projeto de publicar um livro best-seller: a eleição de um presiidente negro. Naquela época, a idéia exigia um espírito de precursor, pois não estava tão longe a guerra da secessão e basta se lembrar que só nos anos 60, negros e brancos foram considerados em pé de igualdade.

Portanto, bem antes de Martin Luther King, Lobato teve um sonho, ou melhor, escreveu um livro de antecipação, com máquina do tempo, prevendo a eleição do primeiro presidente negro estadunidense em 2228. E, embora num outro contexto, o candidato negro, Jim Roy, tinha uma mulher como adversária, era a feminista Evelyn Astor.

Ninguém quis publicar o livro nos EUA, mas a visão antecipativa de Lobato se manifestou também em outra trama do mesmo livro. Nos EUA dessa época imaginária, os brancos para se vingar do presidente eleito, decidiram eliminar os negros de uma maneira total, lembrando a solução final aplicada, menos de vinte anos depois, pelos nazistas aos judeus. Em síntese, poderíamos dizer que nosso Lobato dos anos 20 do século passado poderia ter feito carreira como futurólogo.

Essa atualidade inesperada do esquecido livro de Lobato, me fez pesquisar sobre o pai do Jeca Tatu, cujas histórias cativaram tantas crianças, antes da chegada da nova tecnologia com seus play-stations e desenhos animados japoneses. Atualidade de um lado negativa para Lobato, pois a figura de tia Nastácia e as observações de Emília sobre povo e negros, embora fazendo parte do conceito social da época, podem hoje ser consideradas como racistas.

Porém, vamos dar o enfoque ao Lobato precursor que, ao retornar dos EUA, em 1931, chega ao Brasil convencido da necessidade de se explorar o petróleo e a siderurgia. Para tanto, criou uma empresa de exploração do petróleo, até se desiludir do seu sonho de se tornar um magnata, ao descobrir que a Standard Oil comprava os membros do Conselho Nacional do Petróleo para afirmarem não haver petróleo no Brasil.

Nisso também as conclusões de Lobato não estavam longe dos nossos dias. Se naqueles anos 30 e 40, a Standard Oil monopolizava a extração do petróleo e agia contra todos quantos ousavam tentar evitar seus tentáculos em expansão pelo mundo, Lobato veria que hoje pouca coisa mudou, pois os EUA fizeram uma guerra e ocupam o Iraque para ter acesso às suas jazidas. Mas se Getúlio prendeu Lobato, acabou percebendo ter razão o escritor ao desafiar a Standard Oil com a nacionalização do petróleo e a criação da Petrobrás.

Enfim e infelizmente, pelo que li no último panfleto do provocador e documentarista Mike Moore, com ou sem presidente negro os EUA não vão mudar muita coisa depois de Bush.

Tags:
Edições digital e impressa